Dossiê 14º For Rainbow: "Amem-se"

Arthur Gadelha compôs o Júri da Crítica no 14º For Rainbow - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual e de Gênero. Confira os premiados aqui.

O título deste artigo é o texto final de Os Últimos Românticos do Mundo (MT), de Henrique Arruda. Brega, eu sei, faz parte. Ao fugir às pressas de uma cidade em ruínas, um casal perambula num limbo existencial enquanto espera o mundo acabar, ambos na esperança de que exista um próximo onde o amor possa ser celebrado em sua integridade. Mas o mundo nunca acaba, e eles ficam ali esperando. Envelhecem nessa espera. Envelhecem, apesar disso, felizes. É quando no fim dessa jornada surge o imperativo tão brega quanto emblemático: amem-se.


Essa mensagem, mergulhada num contexto até estético, funciona de forma bastante elétrica na perspectiva de universo excessivamente cômico. A edição pega emprestada a narrativa épica de uma transmissão de TV para imprimir certa ironia nessa imagem futurista de aparência irreal, construída, e talvez por isso tão esperançosa. Optei por começar o dossiê à partir desse filme porque essa beleza irreverente se projeta na sensação mais potente da 14ª edição do For Rainbow.


A começar pelos longas-metragens brasileiros, pulsa uma naturalidade na existência de diferentes corpos e a forma como enfrentam conflitos que, apesar de recorrentes na realidade LGBT, são surpreendentes pela origem de seus pontos de vistas. Com exceção de "Cores do Divino" (CE), de Victor Costa Lopes, que surpreende negativamente pela montagem que não ajuda a obra em construir uma mensagem sólida, todos os outros põem à mesa dúvidas impressionantes.


Mães do Derick (PR), de Dê Kelm, premiado como Melhor Filme pelo Júri Oficial e pelo Júri da Crítica, é essa surpresa assustadora. Girando ao redor de Derick, o filme descobre a resistência civil e identitária de suas quatro mães, mulheres cujas realidades distintas convergem na vida dessa criança. Aventurando-se pelo documentário, ficção e até mesmo musical, a obra expõe a busca pelo direito de existência, moradia e reflexão desses corpos de forma respeitosa e proporcional à maneira que a própria realidade filmada se interpreta.


É como no igualmente desconcertante Limiar (SP), de Coraci Ruiz, um documentário que, ao acompanhar o processo de transição de gênero de um adolescente, não filma a solidificação do conflito ativo, mas o conflito mais inquieto: a mãe que busca entender a veracidade e consistência desse processo. Por si só, a ideia é de uma sinceridade arrebatadora, a exposição de uma mãe que parece mais em arrelia que o próprio filho. É profundamente autobiográfico o olhar de Coraci e tudo alcança um grau de coragem: o roteiro, a fotografia íntima, a trilha contemplativa... Um filme que é usado como ferramenta de um processo de aceitação que acontece do lado de cá da câmera, na vida real.


Cena de "Advento de Maria"

Em Advento de Maria (DF), de Vinícius Machado, a história de uma garota trans ganha uma expressividade admirável até na superfície da sua dramatização. Isso porque a roupagem amadora (produção, direção de arte, trilha sonora e atuação) corrobora para uma interpretação particular. Pode ser um filme frágil se visto por uma ótica mais generalista, mas quanto mais penso mais me parece que seu didatismo seja um elemento precioso. A relação da descoberta de Maria sobre sua identidade de gênero espelhada com a identidade de alguém que é "deus" e "humano" ao mesmo tempo é de uma delicadeza bonita - é como se ao se desenvolver exclusivamente ao redor de Maria e seus conflitos, este fosse um filme feito para criança mesmo. Honestamente, me parece algo bastante novo. Não à toa o prêmio de Melhor Atriz do festival foi para a protagonista dessa comunicação direta: Maria Eduarda Maia.


Prazer Em Conhecer (RJ), de Susanna Lira, é outro que se apropria do didatismo para encontrar sua mensagem. Filmado como se fosse um documentário, mas sem qualquer entrevistador ou interação direta com a câmera, essa ficção se desenvolve ao redor de pessoas comuns de diferentes profissões que refletem sobre a coexistência do debate sobre o vírus HIV no meio LGBT. O filme é como uma cartilha sobre o uso de medicamentos enquanto, ao mesmo tempo, investiga a personalidade e seus conflitos urbanos, e essa soma consegue se manter atraente até o fim. Como um filme-serviço que, ao invés de incomodar ou soar falso, chega a ser fascinante.


Lembrando o que acontece em Advento de Maria, o curta-metragem Mistérios da Carne (RN), de Rafaela Camelo, é outro que descobre uma narrativa atraente entre sexualidade e a religião. É sutil quando Camila prova o sangue da amiga, uma analogia direta entre o desejo da carne e a mensagem de salvação que a Igreja Católica prega à partir do mesmo elemento: provar o corpo e o sangue de Cristo não é como legitimar um desejo?


Cena de "Inabitáveis"

O impulso sobre outro tipo de repressão conduz o filme Inabitáveis (ES), de Anderson Bardot. Impressiona pela sutil devoção à dança e aos sonhos como ferramentas para reinterpretar o tempo e os sentimentos, lançando um olhar poético sobre a presença do corpo negro. O teatro invade o cinema e a realidade, o passado convertido num presente cujo final pode ser, deve e é, outro. A dança silenciosa sobre a igreja e a cidade é um desses elementos que atualizam a história e a dança, enquanto alcança a experiência do desejo, a eletricidade dos corpos, o expurgo, um respiro. Mensagem que lembra os caminhos de afirmação alçados por Perifericu (SP), de Nay Mendl, Rosa Caldeira, Vita Pereira, Stheffany Fernanda, que projeta a vivência do corpo LGBT, trans e periférico indissociável de uma constante reafirmação urbana - elemento evidenciado pela força das personagens, pelo roteiro cíclico e pela montagem política.


Construindo novas narrativas sobre conflitos antigos e redescobrindo transições poderosas, o 14º For Rainbow - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual e de Gênero alcança um nível de discussão arrepiante, principalmente fazendo parte de um ano tão recheado de desafios. Mesmo à distância, sem o calor dos corpos reunidos, nem a festa ou as conversas presenciais, uma edição que se reestabelece de forma admirável. Uma delícia, como sempre foi.

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