• Rodrigo Passolargo

Titane e Mães Paralelas: solitárias gestações

Texto por Rodrigo Passolargo

2021 incubaram duas interessantes produções para as telas brasileiras em 2022. Filhas de europeus, as películas de Julia Ducournau & Pedro Almodóvar nascem num mundo que resiste a terceira onda pandêmica, presenciam levantes preocupantes de extrema-direita e encaram uma crise no audiovisual mundial em diversas camadas. Nos desafios em tomar seus primeiros fôlegos nesse cenário, seus filmes encontram e se desencontram dentro de temas intrigantes e propostas de reflexões.


O espanhol Mães Paralelas narra de maneira por vezes burlesca e novelística a história de duas mulheres, especialmente com a protagonista Janis (Penélope Cruz), com gestações inesperadas que compartilham a mesma sala de espera e dão a luz quase em simultâneo. Anos depois, ambas mães solos cruzam novamente seus destinos por linhas tortuosas.


Na contramão, o francês Titane avança de maneira transgressora e violenta diante de um corpo rompido pelo materialismo. Quando criança, Alexa sofre um acidente automobilístico onde é necessário o implante de uma placa de titânio na sua cabeça. Ela cresce (pela atriz Ágatha Rousselle) numa adolescência conturbada com conexões inusitadas, rendendo uma estranha gestação e encontros delirantes.


De um lado, as mulheres de Almodóvar cercadas pelos dramas da sociedade latino-europeia e o rompimento das estruturas clássicas através da independência como ponto de partida para o apogeu de suas forças, construindo personagens fortes, táteis e visionárias. Os enredos com suas crises nos norteiam sobre o mundo atual com tamanha clareza para que o impacto das transformações das personagens femininas nos indiquem os recortes certos que seu diretor pretende mostrar. Nem que tais transformações sejam véus que retirados revelam mulheres que sempre estiveram embrionando concepções de um mundo novo através de fêmeos espólios de outrora.


Trocando as canções de ninar pelo ronco dos motores, Ducournau faz de sua protagonista um tratado de alma através da contravenção do corpo em moldes totalmente distintos de Mães Paralelas. Aqui, toda possível reflexão sobre identidade e alma é quase totalmente dependente da imagem da matéria, explicitada através do corpo. A matéria/corpo é a propriedade de adquirir diferentes formas, e nelas a faculdade de sentir. Um filme que faz o discurso dentro um pensamento lamettriano que deixa uma lacuna aberta com a possibilidade de uma interferência externa a matéria. E fora o único momento que Alexa encontra sua “sombra” como proteção (e mesmo assim bem dependente do corpo e alma dessa sombra), Ducournau em Titane exclui tal possibilidade de sua equação narrativa.


Enquanto isso, Mães Paralelas não larga o romantismo latino na veia e tenta demonstrar uma preocupação não somente pela alma e sensações do agora, mas daqueles que já se foram. Nele, os dramas biológicos aproximam as partes envolvidas em vínculos cada vez mais íntimos, descobrindo os lençóis de sentimentos, mas tais vínculos são independentes até em campos da ética das relações.


Em Titane não existe espaço para as cores marcantes e a organização preocupada de Almodóvar. Se a presença maquinária é uma afronta ao homem - pois em muitas correntes ela o afastaria do poder sacro e criacional -, Ducournau afronta a sociedade no todo com sua “femme-machina”, retirando sua jornada das mãos alheias.


Entre romantismos e materialismos, ambos os filmes falam de independência de seus corpos e almas. Mesmo dentro de uma novela convencional ou um mecanicismo irascível, elas se apartam do alheio e lutam nas dimensões do si. As dicotomias do desterro das tumbas do passado e a mecanotropia do amanhã são os enfrentamentos das gestações que beiram a eclâmpsia. E nessa crise que dão a si mais significados, sem surpresas e já previstos em Mães Paralelas e totalmente alucinantes no impactante Titane.


Ducournau e Almodóvar em equiparável assimetria nos mostram através de suas protagonistas (rendendo a Ágatha Rousselle e Penélope Cruz grandes atuações do ano) o processo de reconhecimento da solidão de suas gestações, a metamorfose vivida, dores e perdas do processo que carregam o discurso do corpo e alma até o desfechos de seus filmes. Elas estão gerindo a si e tantas outras.


Se toda maternidade é uma revolução, nada melhor que o cinema - que nasce da luz - para dar vida a histórias como essas.

 

Rodrigo Passolargo é roteirista, escritor, produtor cultural cearense e crítico de cinema. Formado em Economia e graduando em História, com pesquisa voltada ao regional nordestino, cultura popular e armorial.