• Raiane Ferreira

Sweat (2021): Os dois lados da vida nas redes sociais

Publicado pela Autora no site Uma Mulher com Uma Câmera

O advento das redes sociais fez o ser humano mudar a forma de se relacionar consigo e com o mundo. E assim, cresceu a cobrança pela adesão aos padrões da imagem ideal, da vida perfeita, do corpo perfeito e todas as ilusões que as redes sociais acarretam na realidade. Foi observando esta questão que o diretor sueco Magnus von Horn elaborou seu último filme, SWEAT (2021), que aborda toda a pressão criada pelo contexto digital.


Sylwia é uma treinadora motivacional dentro dos padrões de beleza; por conta disso e de seu carisma, não demorou muito para se destacar e conquistar 600 mil seguidores no Instagram. Na primeira cena vemos a protagonista em uma maratona de exercícios rodeada por fãs. Seu semblante é alegre, enérgico e contagiante, mas seria esta alegria genuína?


Como toda jovem moça dentro do contexto digital, a influencer passa a maior parte do dia ligada às suas redes sociais criando conteúdo, compartilhando dicas sobre exercícios e alimentação saudável. Tudo aquilo que é compartilhado por ela é previamente selecionado, sendo ocultada uma parte de sua vida que não se enquadra no que espera dela.


Em uma noite, Sylwia publica um vídeo mostrando sua fragilidade e tal ação compromete a imagem perfeita até então divulgada na internet. Este ato gera reações diversas da mídia e daqueles que a acompanham. Seus patrocinadores passam a questionar seu profissionalismo e é a partir deste fato que o filme se desenrola mostrando a rotina da protagonista e os desafios externos e internos que ela precisa superar.


Em uma entrevista, o diretor afirma que a ideia deste trabalho surgiu pela curiosidade de saber como realmente é a vida de um influenciador social. Com base nisso ele desenvolve uma versão da vida destes profissionais de forma bem próxima a de uma pessoa comum, com problemas e dificuldades, alegrias e tristezas, já que a realidade não prevalece no que se vê no feed.


As escolhas estéticas deste trabalho ajudam nesta aproximação com a personagem, pois a direção opta por usar de modo predominante, essa câmera que age como observador, acompanhando de perto a treinadora. O uso do close-up também é bastante explorado, focando bem no olhar de Sylwia e isso também surge como um mecanismo de aproximação, um pouco forçadamente, do público para o íntimo na moça.


É fato que as mídias digitais dessubjetivam as pessoas. E é interessante como a atuação de Magdalena Kolesnik contrapõe esta ideia trazendo complexidade à protagonista. À medida que o longa se desenvolve, percebe-se mais as nuances da personalidade de Sylwia, seja pelo modo como ela reage à pressão de manter-se em forma, em relação à rotina solitária, ou pela descoberta de um stalker.


Ao comentar sobre a ação desse perseguidor, sua mãe rebate essa suposta visão superficial da filha sobre uma pessoa que ela nem conhece. A partir desse ponto, notamos uma interessante abertura para uma reflexão sobre como os indivíduos enxergam uns aos outros. Assim como sobre é fácil e prazeroso julgar as pessoas sem conhecê-las. O que prova que, de certa forma, a influencer também acaba vítima da mesma postura que carrega diante da sua vida pessoal e profissional.


É desse modo que o filme também aborda, mesmo que instantaneamente, a complexidade das relações humanas dentro do ciberespaço e fora dele. Além da abordagem sobre a vulnerabilidade como fruto da exposição daqueles que estão em visibilidade nas mídias. As redes sociais fazem com que o indivíduo contemporâneo não saiba lidar nem com seus problemas, nem com os dos outros. Tudo isso atesta que, de certa forma, a solidão exista para todos, ainda que muitas vezes lutemos para esconder nosso "eu" verdadeiro, frágil e imperfeito.


Talvez Sylwia seja refém da vida que tanto desejou e que muitos invejam. E ao mesmo tempo que diz a si mesma que publica o que quer, ela se limita e se esconde por trás de uma máscara bela e carismática. Uma figura de ocultamento que opera somente a partir daquilo o que os outros desejam que ela seja. O resultado para a protagonista acaba sendo inevitavelmente a solidão. Então, de que vale todo o esforço feito em busca desse suposto sucesso?


Essa mulher vive uma vida que é considerada por muitos nos dias atuais uma espécie de "sonho contemporâneo". Ela possui uma boa aparência, um apartamento e um carro próprio, dinheiro. Faz sucesso na internet, porém esta realidade gera consequências que nem todos estão preparados para lidar. E isso nos faz lembrar que, viver esse "sonho" parece ter muito mais a ver com um estar esquizofrênico no mundo, sem considerarmos a vivência concreta e crível aquilo que vivenciamos na vida real. Viver o sonho é de fato perder-se no vazio de irrealidade do contemporâneo.


Logo, podemos entender como um engano pensar que o mundo virtual possa a vir a ser uma realidade. Esse espaço, assim como tudo o que existe na internet, é uma parte do real, uma versão selecionada, meio torta e que de certa forma nos tira da nossa subjetividade e muitos casos, como vemos com Sylwia, pode nos controlar por completo.

Raiane Ferreira é realizadora, montadora, critica e pesquisadora. É a criadora do canal Uma Mulher Com Uma Câmera, que busca refletir sobre as mulheres no cinema, tanto frente à câmera quanto atrás dela.