• Daniel Victor

Summer of Soul (2021): além do resgate histórico

Publicado pelo Autor no site Clube Cinema

Com certeza você já ouviu falar ou até assistiu algum show de Woodstock. Existem vários documentários, vídeos e filmes que retratam o que foi aquele festival. Agora, se eu lhe disser que no mesmo ano, 1969, no meio do Harlem em Nova York, outro festival reuniu mais de 300 mil pessoas majoritariamente negras e de outras minorias por seis semanas, você saberia dizer qual? Provavelmente a resposta é não.


Summer of Soul (…ou Quando A Revolução Não Pode Ser Televisionada) é um documentário que resgata um marco histórico. Por 50 anos as filmagens do Festival Cultural do Harlem (1969) ficaram no sótão. Muitos acreditavam que tal evento era uma lenda, até que o realizador Questlove, que presenciou o festival, achou as filmagens e ficou maravilhado com todo o material. E posso dizer que o crítico que vos escreve também.


Em 1969 os Estados Unidos viviam um período turbulento. A cada verão algum evento de grandes proporções acontecia: em 1963 a morte de Kennedy, em 1965 a morte de Malcolm X, em 1968 a morte de Martin Luther King e em 1969 a morte de John Kennedy e os protestos contra a Guerra contra o Vietnã marcavam o país. Obviamente, a comunidade mais afetada era a negra, que estava dividida entre manifestações pacíficas ou uma completa revolução.


Tanto Woodstock como o Festival Cultural do Harlem foram festividades com intuito de promover a paz. Porém, no caso do segundo evento, gerava-se muito mais desconfiança para a comunidade negra em Nova York. Summer of Soul demonstra todas essas facetas da história com perfeição: as dificuldades, as vitórias, o passado, o festival e as consequências daqueles que participaram de tal marco.


A edição de Joshua L. Pearson é certeira, mesclando com perfeição performances musicais, imagens de arquivos, entrevistas de quem viveu a época do festival e pessoas que analisam o impacto do evento. O espectador é perfeitamente contextualizado no período histórico vigente com a história dos negros em todo os Estados Unidos.


O evento marcou a paz, mas era extremamente político. O prefeito de Nova York, John V. Lindsay, permitiu que o festival acontecesse, mas parte da proteção foi feita pelos Panteras Negras. Tony Lawrence foi o responsável pela criação do festival que reuniu os maiores artistas negros de diferentes estilos musicais, como Blues, Soul, Pop, Gospel, R&B, Cubana e Latina. Eles, além das canções tocadas, propagavam a resistência e a luta das minorias.


Stevie Wonder, B.B.King, The Chambers Brothers, David Ruffin, 5th Dimension (com hit Aquarius/Let it Sunshine in), a homenagem emocionante para Martin Luther King cantada por Mavis Staples e Mahalia Jackson, Edwin Hawkins Singers, Gladys Knight, Sly and The Family Stone, Ray Barreto, Nina Simone são alguns dos artistas que marcaram presença no evento e testemunharam uma multidão que eles nunca haviam visto antes.


Obviamente que questões históricas da própria música são postas em cheque. O grupo 5th Dimension “tocava música pop dos brancos”, o gospel que como uma das entrevistadas diz “era nosso DNA”, foi questionado dentro das igrejas devido ao comportamento das danças. O festival serviu para a própria comunidade negra quebrar preconceitos.


Cada entrevista é pertinente, pois adiciona um olhar pessoal além de nos contextualizar historicamente. Aprendemos sobre música, política, história, minorias, religião e danças. A história da gravadora Motown e como R&B foi parte da disseminação das ideologias negras e como isso influenciou as gerações seguintes, inclusive os brancos, perpassa o documentário.


O Festival foi um ponto de mudança para vários artistas e para todos que puderam testemunhar o evento. Estilo e formas de verem o mundo foram revistos, pois cada artista era único e trazia um novo modo de fazer canções que estavam em constante mudança de estilo. O afrocentrismo entrava em cena e transformações foram sentidas em toda a sociedade e o orgulho de ser negro teve seu ápice no evento. A comunidade podia se expressar em paz e sem nenhum tipo de vergonha e discriminação durante o festival.


Harlem era o berço da comunidade negra em Nova York e ver, durante várias semanas todos aqueles artistas, ativistas políticos, pregações de pastores, tudo junto em perfeita harmonia, nos faz perguntar: Qual o motivo de nunca termos visto essas imagens antes? Em meio ao Festival, no dia 20 de julho de 1969, o homem pisava na lua. Isso não atrapalhou o evento. Pessoas brancas estavam emocionadas com tamanha façanha tecnológica, enquanto os negros queriam que o dinheiro investido fosse investido em igualdade.


O Festival também aconteceu enquanto 21 integrantes do Panteras Negras eram julgados e a violência policial aumentava contra a comunidade negra. O Festival Cultural do Harlem era um palco de paz e refúgio, porém como dito, também de muita política. Então, não é à toa que o evento que unia as minorias era visto como uma anomalia e que queriam que fosse esquecido e apagado da história.


Summer of Soul (…ou Quando A Revolução Não Pode Ser Televisionada) vai além do resgaste histórico. E demonstra como o cinema e as artes, que muitas vezes tentam ser apagadas, resiste. Ninguém estava louco, o Festival existiu! E é sem dúvida um marco que condensa uma época cheia de transformações. E como diz um entrevistado que estava no evento: “Em 1969 foi um ano crucial em que o “preto” morreu e o “negro” nasceu.