• Daniel Victor

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2021)

Texto publicado pelo Autor no site Clube Cinema

A quarta fase do MCU (Marvel Cinematic Universe) ainda está longe de acabar e com certeza promete trazer surpresas aos fãs. Mas ouso dizer que dentre as produções desse novo ciclo, Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis tem tudo para ser especial. Apesar de não tocar no ponto crucial que cada vez mais está se consolidando na Marvel: O Multiverso. Bem, não completamente.


Depois do final épico com Vingadores: Ultimato que “finalizou” a “Saga do Infinito”, as expectativas sobre os próximos passos da Marvel com seu universo eram enormes. A fase quatro começaria com filmes e séries disponíveis no serviço de streaming Disney + (WandaVision, Falcão e o Soldado Invernal, Loki e What If…?, esse último ainda em andamento), em conjunto. Mas devido a pandemia que assolou o planeta, o planejamento teve de ser alterado. Já no cinema, a quarta fase abre com Viúva Negra. De fato, Shang-Chi é o novo herói apresentado para integrar o panteão do MCU. Mas o longa, assim como estrelado por Scarlett Johansson, faz referências ao passado, entretanto aqui, introduzindo elementos mais significativos para o futuro.


Shang-Chi segue a “Fórmula Marvel” à risca. Podemos dividir o longa em duas partes: a primeira é um filme mediano, urbano, com o humor sagaz, que muitas vezes estraga o ritmo, que se salva devido a ação muito acima da média. Já a segunda é uma narrativa em um tom crescente, que vai surpreendendo o espectador. Fora que um universo fantástico é nos apresentado sendo uma das mais belas produções do estúdio.


A primeira coisa a se notar no longa é a representatividade. Aqui, como em Pantera Negra, a maior parte do elenco tem a etnia do protagonista (no caso aqui de asiáticos), e a Marvel tomou bastante cuidado para não cometer gafes ao representar de forma errônea a cultura oriental - inclusive porque o mercado Chinês é um dos maiores do mundo. Kevin Feige (o produtor que organiza todo o MCU), tratou inclusive de excluir qualquer menção a Fu-Manchu: personagem clássico que representava de forma estereotipada os orientais e originalmente foi o pai de Shang-Chi nas HQs.


A direção de Destin Cretton é inventiva, principalmente nas cenas de ação. Em certos momentos as lutas são como uma dança (características do Kung Fu), com a câmera se movimentando ao redor dos personagens e slow motion e cortes pontuais (lembrando o longa “Herói” e até mesmo a animação “Avatar: A Lenda de Aang”). Outros embates, principalmente na primeira metade, a montagem é mais rápida e com planos longos, porém não atrapalha o entendimento do espectador - méritos do coreógrafo Andy Cheng e da editora Elísabet Ronaldsdóttir.


O personagem é bem mais realista do que nas HQs, inclusive várias mudanças para o MCU foram tomadas, como dar um grau de parentesco entre Wenwu e o protagonista; Chi não tem habilidades exageradas (pelo menos até o terceiro ato). Inclusive o apelido “Mestre do Kung Fu” não é citado durante o longa. Os anéis de seu Pai também sofreram mudanças. Aqui se trata mais de rajadas de energias lançadas contra o inimigo.


A fotografia Bill Pope transita bem entre o urbano e fantástico de maneira orgânica, utilizando cores mais sóbrias no ambiente da cidade ou quando mostra o antagonista e cores completamente vivas e coloridas quando conhecemos o fantástico, mérito compartilhado com o diretor de arte Jan Edwards que se inspirou na estética do clássico: O Tigre e o Dragão. Inclusive Michelle Yeoh, uma personagem fundamental no longa de Ang Lee, faz a Tia de Chi e sua irmã, a personagem Ying Nan.


Kate é o alívio cômico do longa e fiel amiga do protagonista, uma sidekick, que tem uma evolução na trama sendo fundamental em certos momentos. A Marvel quase quebra o paradigma de transformar personagens secundárias em interesse romântico. Infelizmente, fica subtendido que eles serão um casal. A irmã de Shang também tem um arco dramático fundamental: tanto na ação como na construção do conceito de família.


Mas, como já citado, é na segunda metade e principalmente no terceiro ato que o filme ganha tons épicos, tornando-se uma verdadeira celebração e homenagem à beleza e cultura oriental. Criaturas mitológicas se fazem presentes (posso estar enganado, mas estou colocando a palavra “oriental” ao invés de apenas “chinesa”, pois acho que é diretor abrangeu mais de uma mitologia). A batalha final é um grande deleite. Nesse momento o longa se dá a liberdade de explorar todo o potencial fantástico do universo exposto, inclusive referenciando as HQs do herói. O protagonista finalmente utiliza seu lado místico até antes contido. Além do confronto inevitável com seu pai, o filme entrega uma surpresa que vai alegrar demais os fãs dos quadrinhos de longa data. Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é um filme que começa morno e termina épico. Com muita ação, o longa é uma carta de amor à cultura oriental. Qual será o futuro do personagem? Ninguém sabe ao certo, porém, bem-vindo ao MCU.

Daniel Victor trabalha como Crítico de Cinema desde 2016, e é formado em Cinema e Audiovisual. Atualmente colabora com o site Clube Cinema