• Raiane Ferreira

Pleasure (2021): Por trás das câmeras nos filmes pornográficos

Crítica por Raiane Ferreira publicada pela autora no site Uma Mulher Com Uma Câmera

São poucos os filmes que abordam a indústria pornográfica a fim de propor uma problemática a ser refletida para além do fetiche que o meio suscita. Alguns documentários até abordam o tema para mostrar esta realidade, mas na ficção falar diretamente sobre pornografia ainda é, de certa forma, um tabu. E no meio de tudo isso surge o longa-metragem "Pleasure", dirigido por Ninja Thyberg, que não só aborda a temática, mas também traz uma reflexão sobre ela.


O projeto, que se inicia como um curta-metragem de mesmo nome, alcança uma maior projeção depois de ser premiado na Semana da Crítica durante o Festival de Cannes. É dentro desse contexto que "Pleasure" se torna um longa-metragem que consegue aprofundar as camadas sobre as complexas relações de poder da indústria dos filmes pornográficos. Esse é um terreno por onde a diretora sueca transita bem uma vez que ela já realizou projetos anteriores em que o erotismo é essa matéria-prima esmiuçada a partir da narrativa fílmica. A diretora sueca já possui trabalhos em que o erotismo está presente, e que mostram mulheres incluídas no universo masculino que as objetificam.


Apesar de o filme abordar a questão de mulheres inseridas em um universo marcado pela presença masculina e da consequente objetificação da figura do feminino, o olhar de Thyberg na direção garante um ponto de vista diferenciado principalmente na concepção da protagonista, Bella, interpretada pela atriz Sofia Kappel. A garota saiu da Suécia para Los Angeles com o desejo de se tornar uma grande estrela de filmes pornôs. No entanto, sua ingenuidade e ambição a conduz para caminhos perigosos, muitas vezes, difíceis de sair. Ao mesmo tempo em que ela luta para alcançar seu empoderamento, a personagem entra cada vez mais na realidade obscura daquela indústria.


O provocativo filme aborda como o campo dos conteúdos adultos pode humilhar e destruir as pessoas nele inserido, afinando a linha do consentimento e o não consentimento. Ele consegue transmitir muito bem as consequências da naturalização deste tipo de assunto e como o excesso dele dessensibiliza as pessoas que atuam e consomem esses conteúdos extremos.


A abordagem naturalista aparece tanto através da linguagem escolhida, quanto na atuação, já que muitos personagens interpretam eles mesmos no filme. A diretora desconstrói os clichês relacionados às figuras que trabalham na área, principalmente as mulheres. A protagonista não cai naquele universo acidentalmente, ela tem o desejo ingênuo de desenvolver uma carreira no campo, mesmo ainda não compreendendo os resultados que isso pode lhe causar. E inserida no meio, ela vai vivendo situações que progressivamente passam a desiludi-la e entendemos isso mesmo que a sua construção como personagem não abarque toda a complexidade que uma figura dessas poderia evocar.


O desencanto da protagonista é semelhante a qualquer frustração profissional, só que aqui temos uma ocupação marginalizada, precária e totalmente degradante. Embora pareça encantadora para pessoas que acreditam aliar o ofício ao prazer, o longa coloca em xeque a ideia distorcida do real quadro dessa profissão. E é movida por esse falso pensamento que Bella pensa irá ascender no meio, já que é uma mulher fisicamente atraente e que agrada aos olhos masculinos.


E o filme consegue mostrar através do uso direto na construção de determinadas situações, toda a complexa teia de problemas que a jovem precisa lidar. De uma violência que surge por debaixo de uma camada bem fina e dúbia entre acolhimento e encorajamento, pressão e manipulação implícitas na dinâmica do set de filmagens. Mas tudo isso é entendido com clareza pelo espectador, gerando um mal estar a partir das vivências da própria personagem. Uma abordagem que nos lembra, em certa medida, a experiência do cinema de horror.


Em todo o caso, as violações, estejam elas implícitas ou explícitas, fazem-se presentes em toda a experiência de Bella. E a diretora consegue equilibrar essa atmosfera alternando entre o revelado e o sugerido, pontuando o universo através dos limites da violência e degradação, e sempre fazendo uso de cenas provocativas e difíceis, mas que não precisam expor demais a protagonista da trama.


Toda uma naturalidade percebida nos traços da personagem pode ser lida como fruto da precisa atuação de Sofia Kappel. Mesmo não pertencendo realmente ao mundo pornográfico, sua performance garante uma humanização a essa essa espécie de “Alice no País das Maravilhas" em uma dinâmica reversa. Porém seus medos, fragilidades, angústias e alegrias ainda aparecem de forma relativamente superficial. Levando em consideração que é bastante comum as mulheres serem objetificadas e desumanizadas em tipos de conteúdos direcionados ao público masculino, como é o caso do filme adulto. Refletindo em cima disso, é importante entendermos que a mulher precisa aparecer na tela de forma mais cuidadosa, e neste ponto acho que a diretora poderia ter se atentado mais ao modo como a protagonista opera dentro da narrativa. Porque no apanhado geral, a impressão que ficamos é a de que Bella estaria apenas respondendo a estímulos externos.


Embora exista muita competitividade, violência e exploração nesse universo, um ponto de equilíbrio no filme surge através da relação de troca e parceria mantida entre as mulheres. É junto das moças que dividem o apartamento, que Bella tem momentos descontraídos onde ela pode ser quem realmente é. Porém toda a confiança é diluída pela sua ambição de crescer rapidamente como estrela pornô, acreditando que, a partir disso, conseguirá proteção e poder. Percebermos se ela consegue ou não acessar esse desejo é o caminho que o longa nos traça enquanto espectadores.


Outro detalhe importante que pode passar quase despercebido é a exigência extrema que as garotas possuem para com a higiene e aparência. São múltiplas as cenas que esmiuçam essa rotina minuciosa que as mulheres precisam passar para serem aceitas nos trabalhos. E dentro dessa dinâmica, a naturalidade dos seus corpos, como seus fluxos e pelos, são discriminados. Outras vezes, o foco da narrativa recai mais nesse desconforto que a protagonista sente em maior ou menor medida a partir das decisões que ela toma no trabalho. é um desconforto que ganha forma seja na sua percepção do meio ou de modo mais concreto, como o uso de uma roupa desconfortável, por exemplo.


Na soma desses fatores, o filme explora de forma inteligente as camadas problemáticas do universo dos profissionais desse meio. O arco dramático proposto pelo longa assume uma posição ascendente, uma vez que ela sai de uma visão inocente conforme vai entrando na indústria, e passa a ser educada nos padrões tóxicos que existem no tipo de convivência ali gerado. Por mais que o prazer esteja implícito no fazer de Bella, ele tende a vir a ser acompanhado também de algum sofrimento ou abuso. E a partir dessa realidade é que a jovem vai aprendendo como transitar naquele universo. Uma atmosfera que pede dela atenção para não ser objetificada, mas que também cobra dela a posição da mulher que precisa abrir mão da sua subjetividade e que nesse sentido, quase se aproxima do arquétipo masculino na sua impossibilidade de demonstrar qualquer tipo de fraqueza ou fragilidade.


Quem for assistir “Pleasure”, disponível na plataforma Mubi, com certeza vai presenciar uma obra ousada e intrigante. Um trabalho que consegue atingir seu objetivo de instigar o público a refletir sobre aspectos da indústria pornográfica, principalmente daquilo que ela causa negativamente na vida de seus profissionais, principalmente das mulheres.

 

Raiane Ferreira é realizadora, montadora, critica e pesquisadora. É a criadora do canal Uma Mulher Com Uma Câmera, que busca refletir sobre as mulheres no cinema, tanto frente à câmera quanto atrás dela.