• Arthur Gadelha

Pequena Mamãe (2021): a quieta felicidade de encarar o mundo

Texto publicado por Arthur Gadelha no site Ensaio Crítico

Há um diálogo muito especial, e simples na mesma medida, entre Nelly e seu pai, que resume bem o tom silenciosamente grave de Petite Maman. Quando perguntado sobre as coisas que ela gostaria de saber, há um susto dele (e de nós) diante da maturidade dessa conversa estar sendo conduzida por um garota de oito anos preocupada com as respostas curtas que recebe sobre o passado, na constatação de que ela não sabe nada "sobre as coisas reais". O pai hesita quando a pergunta é sobre os medos que ele tinha quando criança, ao que ela retoma com naturalidade e sem qualquer intenção inquisidora: "você esqueceu?". Sem rodeios, ficamos certos que nessa história a centralidade infantil não é um elemento que impulsa a construção de um mundo alternativo pela ilusão da fábula, mas que confirma o pulso da inocência como objeto transformador dessa mesma realidade que nós, adultos desengonçados, acessamos e infelizmente vivemos. Se olhado como motivado pelas descobertas de Lírios D'Água (2007), Pauline (2010), Tomboy (2011), Garotas (2014) e Minha Vida de Abobrinha (2016), esse último do qual Céline é roteirista, Petite Maman faz ainda mais sentido como esse filme que calcifica dois mundos muito longe da dualidade geralmente empregada nas histórias pela fantasia de "ser criança". Com a morte da avó impulsionando o retorno temporário para a antiga casa onde sua mãe foi criança, Nelly confronta a imensidão do tempo sem qualquer preocupação de seu peso emocional dada a pouquíssima experiência com suas exigências. Então quando encontra uma garota da sua idade construindo uma casa na floresta, ela digere de imediato o que está realmente acontecendo; embora cause uma breve reação de susto, a aceitação da jornada (seja como imaginação ou como realidade, isso verdadeiramente não importa para a narrativa) é o ponto-chave para as descobertas de sua própria personalidade que ainda seria desenvolvida e que nem precisamos acessar de fato. Céline Sciamma faz questão de declarar que não há mistério ou desdobramentos por vir e, especialmente pela honesta duração de 72 minutos, essa história vai encadeando camadas sobre o próprio esclarecimento, o que é uma dinâmica perigosa por ter à mão o conforto como principal ferramenta, aqui nunca usufruída como tal. A diretora, portanto, é esperta na transição entre os dois mundos, apresentando-os sempre de forma integrada, o que dá ao filme um sentimento ainda mais carinhoso e afetuoso na forma como Nelly encara a razão da sua existência. Então a delicadeza desses sentimentos, de saudade, amor e cuidado, são curtas epifanias que contribuem com autoconsciência de um filme sóbrio, silencioso, sem músicas ou reviravoltas, simplesmente porque tudo é tão simples na cabeça da sua protagonista.

À medida em que vai se deixando ser atravessada pelo amor daquela amiga tão especial, Petite Maman vai se tornando uma história até metalinguística sobre a manutenção das memórias, objetos determinantes na forma como "vemos" um passado que é tão criado quanto os pensamentos e as imaginações, e não à toa os sonhos são as formas de toda essa soma anárquica. Petite Maman é como esse sonho lúcido, embora completamente devoto de uma ficção sem pontos finais. Nesse ponto, a fotografia vívida de Claire Mathon (Retrato de uma Jovem em Chamas, Atlantique, Um Estranho no Lago) é outra colaboradora crucial dessa sensação de um devaneio tão real que convence exatamente em sua contradição - dando o tom sempre com uma luz radiante, quente e acolhedora, desaparecem as distâncias entre o efetivo e a ilusão, a floresta e a casa, o presente e o passado, a mãe e a filha, Nelly e Marion. Lançado em 2021, na programação virtual do 71º Festival de Berlim, o filme também transborda os sentimentos da clausura imposta pela pandemia, num contexto onde a casa (e sua obrigação de encará-la) sufoca a personagem da mãe pelo luto e pela solidão. A quarentena também trouxe para muitos de nós essa dúvida sobre o que conhecemos dos outros que moram conosco, sobre os segredos que nem tinham propriamente a intenção de serem guardados, como revela a garota para Nelly, mas que só não tinham quem os revelasse. Construído como um filme de crianças para crianças, Petite Maman (Pequena Mamãe, numa tradução literal e charmosa), é das coisas raras que só uma cineasta madura poderia dar vida sem despencar na simplicidade de uma história indiferente ou nas entranhas de uma ficção científica preocupada com as minúcias. Além do grau súbito de despedida, é um filme bastante feliz apesar de tudo, o que pode nos deixar uma dúvida naturalmente incômoda na forma como essa experiência acessa o lado de cá: será que já nos esquecemos das felicidades quietas?

 

Arthur Gadelha é presidente da Associação Cearense de Críticos de Cinema - Aceccine, diretor de criação audiovisual no Jornal O Povo e autor do site Ensaio Crítico.