O TESTAMENTO DE ANN LEE | A DURA E BELA VIDA DE UMA LÍDER RELIGIOSA
- Raiane Ferreira

- há 2 horas
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Neste mundo tão diverso, é natural que existam múltiplas expressões de fé. As crenças e práticas religiosas carregam histórias que o cinema adora contar. Desta vez, destacamos O Testamento de Ann Lee, filme dirigido pela atriz e produtora norueguesa Mona Fastvold, que co-escreveu o roteiro ao lado de Brady Corbet e traz Amanda Seyfried no papel principal. A obra nos apresenta um drama musical singular, intenso e cheio de beleza, que atravessa temas como fé e intolerância religiosa.
Baseado em uma história real, o filme acompanha a trajetória de Ann Lee e sua influência na seita shaker no século XVIII, sendo ela uma das poucas mulheres líderes religiosas na América do Norte colonial. Temos, aqui, uma protagonista que é, de fato, uma figura feminina forte, convicta naquilo em que acredita. Sua paixão e obstinação lhe rendem aliados que encontram, nela e em sua prática, um espaço de conforto e devoção.
Acompanhamos Ann Lee desde a infância até sua morte. Seu interesse pela religião e o desejo de pregar a aproximam de Jane e James Wardley, conhecidos como “Quakers Tremulantes”, que defendiam a ideia de uma segunda vinda de Jesus na forma de uma mulher. O grupo se destacava pelas confissões públicas e por rituais marcados por louvores e dança.
Ann passa a integrar esse grupo e é ali que conhece seu marido, Abraham — um homem violento, que a submete a relações abusivas. Nesse casamento, ela dá à luz quatro filhos que não sobrevivem. É nesse contexto que Ann é internada em um manicômio; após algum tempo, retorna à sua prática religiosa, agora ocupando um lugar de liderança dentro do movimento.
Em sua trajetória, há uma virada que transforma completamente sua vida. Durante um período de cárcere, enfrentando fome e sede, Ann entra em transe e tem uma visão na qual passa a compreender a relação sexual como uma prática impura. A partir disso, começa a difundir o celibato como forma de purificação da alma, dando origem aos Shakers. Essa postura gera estranhamento e rejeição por parte de muitos, especialmente daqueles que não aceitavam a ritualística do grupo.
A perseguição às ideias de Ann Lee atravessa toda a sua vida, inclusive após sua ida à Nova Inglaterra. Não há como negar o quanto ela foi uma figura marcante. Muitos podem considerá-la uma feminista, mesmo antes da formulação do movimento como o conhecemos hoje, já que rejeitava papéis de gênero rígidos, defendia a igualdade social e acolhia pessoas independentemente de classe, gênero ou etnia — posicionamentos que incomodavam a Igreja Anglicana.

O filme impressiona pela fotografia e pela direção de arte, que evidenciam as nuances da época e a materialidade daqueles corpos e espaços. A construção cênica também se destaca, sobretudo nas sequências musicais. As canções, ainda que de letras simples, carregam uma força emocional profunda, refletindo o que os personagens sentem — e isso é belíssimo de acompanhar.
É interessante perceber como a direção constrói as cenas das cerimônias. Havia o risco de que elas resvalassem no bizarro ou no caricatural, mas o que vemos é justamente o oposto. Há respeito na forma como os Shakers são retratados, tanto pela direção quanto pelo elenco.
A presença de uma direção feminina é fundamental aqui. Mona Fastvold conduz a narrativa com sensibilidade e respeito às figuras retratadas, às suas decisões e crenças, preservando a perspectiva da protagonista — ou da narradora, Mary Partington (Thomasin McKenzie). Esse ponto pode incomodar alguns, que podem sentir falta de maior distanciamento crítico, mas não vejo isso como um problema. Um filme não precisa se sustentar apenas no discurso; ele também pode oferecer uma experiência sensorial, construída a partir da linguagem cinematográfica.
E essa experiência pode ser profunda — especialmente para mulheres. Podemos nos conectar à figura de Ann Lee, mesmo sem concordar com tudo o que ela defende. Trata-se, em alguma medida, de uma história feminina e feminista, que não se rende a uma abordagem celebratória simplista.
O longa se afasta de uma forma tradicional de narrativa e aposta em maior liberdade, especialmente na montagem, que dialoga com uma estética próxima à de Você Não Estará Só! (2022). Há um investimento em uma fotografia naturalista, em uma montagem fluida e em uma sonorização que atravessa todo o filme. A sonoplastia, aliás, é essencial: muitas vezes, ela conduz o próprio ritmo da obra e influencia diretamente as performances. Vale o destaque à direção de Mona Fastvol, e montagem de Sofia Subercaseaux, assim como toda a equipe envolvida.
É uma pena que o filme tenha passado despercebido pelo grande público. Mais preocupante ainda é observar a queda significativa nas bilheterias de filmes dirigidos por mulheres em 2025, que atingiram o nível mais baixo dos últimos sete anos, segundo o relatório "Inclusão na Cadeira de Diretor". Embora o número de produções com protagonismo feminino tenha crescido, a direção masculina ainda segue predominante.

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