“O Morro dos Ventos Uivantes” – O agridoce retrogosto da paixão
- Elvio Franklin
- há 2 horas
- 10 min de leitura

AVISO: Contêm spoilers moderados do filme.
Quando pensamos no significado da palavra “paixão”, o que vem à nossa mente? Um amor ardente e incontrolável; uma atração avassaladora capaz de atravessar nosso peito e nos fazer agir feito idiotas; ou mesmo uma enorme entrega em relação à pessoa amada, beirando a devoção. E sim, paixão é tudo isso, mas também é bem mais.
Etimologicamente a palavra como a usamos no português (mas também de onde deriva o termo em inglês “passion”) tem sua raiz no latim passio/passionis e no grego pathos/pathe e significa “sofrimento”, “padecimento” ou “ato de suportar”.
Bom, neste ponto você já começou a entender onde eu quero chegar… quem nunca, ao “se apaixonar” por uma pessoa, não sentiu que estava padecendo de um mal misterioso, algo que desequilibra corpo e mente, que nos faz agir quase que de forma descontrolada? E mais, quantas vezes essa paixão sofreu uma mutação, transformando-se de um amor absurdo em um ódio furioso e ardente, muitas vezes despertando um desejo de vingança avassalador em nosso âmago?
O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 2026) é o terceiro longa dirigido e roteirizado por Emerald Fennell, que havia estreado chamando bastante atenção com Bela Vingança (Promising Young Woman, 2020), e depois chamado ainda mais atenção com Saltburn (2023), e é a primeira vez que a cineasta adapta uma obra literária, ao invés de trabalhar com uma ideia originalmente sua, ainda que a originalidade desta adaptação seja um de seus pontos altos.
O filme tem como material original o clássico da literatura de mesmo nome, publicado em 1847 e único romance escrito por Emily Brontë, sob o pseudônimo masculino de Ellis Bell. E julgo que seja necessária um breve parêntese sobre a obra e sua autora, antes de falarmos de sua nova versão para o cinema.
Emily foi a quinta filha de seis de um casal de classe média alta de Yorkshire, na Inglaterra. Dentre estes havia duas irmãs mais velhas que faleceram ainda bem jovens e um único irmão homem. Depois dele vinham Charlotte, Emily e Anne. As três foram sempre muito unidas, especialmente após a morte da mãe quando ainda eram adolescentes, o que acabou despertando uma harmonia ainda mais intensa no convívio das irmãs Brontë, enquanto o pai focava na educação do único filho homem. As três foram bastante bem educadas e incentivadas a estudos e leituras, com o objetivo de tornarem-se talvez professoras primárias ou catequistas, algo bem comum para as mulheres daquela classe social àquela época na Inglaterra. Com este incentivo e relativa liberdade as três costumavam escrever poemas e histórias curtas, permeados com referências de suas próprias vidas e experiências e de sua fértil imaginação.
Charlotte acabou se destacando com seu segundo romance publicado, que a levaria ao panteão dos grandes clássicos da literatura com Jane Eyre, enquanto Anne publicou logo em seguida seu A Inquilina de Wildfell Hall, um pouco menos famoso, mas ainda assim um importante retrato da vida conjugal na Era Vitoriana. Já Emily publicou apenas um único romance em sua breve vida, já que faleceu muito jovem aos 30 anos, O Morro dos Ventos Uivantes. O livro destoava bastante dos de suas irmãs por trazer um tom mais melancólico e pessimista (ainda que esse tom também possa ser encontrado de forma um pouco mais branda em ambos os romances das irmãs), além de uma ambientação lúgubre e sorumbático (o que leva algumas pessoas a encaixarem-no no género gótico da literatura do século XIX, algo que pode ser discutível) e temas mais espinhosos para a época, como o abuso dentro dos casamentos e relações extraconjugais. A obra teve uma recepção conturbada, recebendo muitas críticas especialmente da sociedade conservadora europeia, que o via como transgressor e até imoral.

O Morro dos Ventos Uivantes tornou-se um sucesso tardio, passando a ser considerado um livro de alta qualidade e extremamente inovador apenas a morte de sua autora. E após conhecermos melhor a história de Emily passamos a entender o teor do livro e como o mesmo reflete muito a própria vida e a personalidade da autora, além de suas próprias reflexões (inclusive filosóficas, e alguns até farão interpretações freudianas sobre seus personagens) sobre a sociedade e a vida das mulheres naquele período histórico. Uma obra que demonstra uma expressividade sem precedentes na literatura e que a tornaram um dos meus livros preferidos da vida.
Sobre a autora, sua vida e seu único romance, recomendo o filme Emily (2022), única direção da atriz Frances O’Connor, que apesar de simples, direto e até didático, é apaixonado pela genialidade de Emily Brontë.
Achei necessário fazer esses comentários sobre a obra original por dois motivos: primeiro, porque eu sou um tanto quanto obcecado por essa história e tudo que a envolve; segundo, porque apesar de ser uma adaptação que se dá inúmeras liberdades tanto interpretativas, quanto em modificações um tanto elásticas de alguns pontos do romance e de seus personagens, julgo que o filme de Fennell foi sim muito fiel ao espírito do romance, guardadas várias das devidas proporções, e vou tentar destrinchar um pouco deste meu julgamento aqui. Mas pra isso, será preciso tirar alguns elefantes (brancos) da sala.
Em primeiro lugar o elefante menos polêmico: uma adaptação de uma mídia para outra (e aqui falando especialmente de literatura para cinema) sempre será um trabalho de interpretação e visão – muitas vezes bem particular – do artista que está adaptando. Sei que esse papo pode ser até cansativo para algumas pessoas, mas não custa nada deixar claro. Neste filme, sobretudo, a autora toma inclusive uma medida que acho bem extravagante, mas de certo modo condizente com tudo o que envolve sua obra, que foi colocar as aspas em seu título, numa demonstração, que seria impossível de deixar mais clara, de que esta é uma visão DELA da obra, o que deveria ser óbvio, mas nos tempos que vivemos, sabe o que dizem sobre o óbvio, né?
Em segundo lugar o elefante maior e mais incômodo pra alguns: a escolha de elenco para um personagem que na obra original é descrito como não branco, algumas vezes como cigano, outras como tendo um tom escuro de cor de pele (ainda que contraditoriamente em alguns pontos do romance a autora comente sobre sua palidez e pele clara). O fato é que a escalação de um ator indubitavelmente branco para tal papel gerou uma discussão (até positiva em certa medida) sobre o apagamento de um (raríssimo) personagem com protagonismo de uma etnia não branca em uma obra europeia do século XIX. Claro que foi uma escolha pensada, e tal escolha pode sim – e deve – gerar debate(s) e opiniões, e aqui vou dar a minha. Compreendo a escolha de Fennell como mais uma parte de sua visão sobre a obra e o personagem em questão, e parte importantíssima, inclusive, assim como compreendo a decisão de Emily Brontë ao criá-lo com aquelas características físicas. Ambas as decisões estão dentro de um contexto de época e refletem uma certa leitura destas respectivas épocas, ao mesmo tempo que refletem limitações e consciências da sociedade em que foram produzidas. O que quero dizer com isso é que Heathcliff ser interpretado por um ator branco e representado como tal, em uma história que o coloca como um homem desprezível, fruto de uma criação cheia de percalços e abusos, que se relaciona com uma mulher branca e de classe alta parte da tradicional sociedade interiorana da Inglaterra, pode ter sido uma escolha até mais segura e moralmente conveniente nos tempos atuais.
Mas como disse, estou disposto a ouvir e ler (assim como já ouvi e li algumas) opiniões contrárias. Já tivemos inúmeras outras adaptações da obra para o cinema, a esmagadora maioria delas com atores brancos interpretando Heathcliff, e ao menos uma delas (a versão de 2011, dirigida por Andrea Arnold) traz um ator negro no papel, mas por sua vez (e mais uma vez, em minha opinião) faz uma leitura bastante branda da paixão e da relação entre o casal principal da história.
Por último, um ponto sobre a adaptação diretamente vindo do tribunal de minúsculas causas: a Cathy no livro é descrita como tento longos cabelos negros, e aqui na adaptação ela é interpretada pela loiríssima Margot Robbie. Para mim isso não afeta em nada a narrativa, mas sempre tem gente que se incomoda. Outras decisões de adaptações eu devo comentar no decorrer do resto deste já longuíssimo texto. Mas finalmente voltemos para o filme em si.
O filme conta sobre a decadente família Earnshaw de Yorkshire em meados do século XVIII, outrora nobres, composta de um velho pai viúvo e alcoólatra (Martin Clunes), sua jovem filha mimada Catherine (na infância interpretada por Charlotte Mellington), e sua dama de companhia Nelly (interpretado na infância por Vy Nguyen). Uma noite o velho Earnshaw traz para casa um menino que havia sido abandonado pelo pai e o adota, não exatamente como um filho claro, mas como um criado que de certa forma completa a família. Cathy o nomeia, e mesmo que o garoto (interpretado na infância pelo maravilhoso Owen Cooper) tenha modos grosseiros e quase selvagens, ambos criam um forte laço fraterno, ainda que o tratamento que a menina dá ao jovem Heathcliff algumas vezes beire o sadismo, tratando-o como seu bichinho de estimação, enquanto a personalidade introspectiva do menino algumas vezes exploda em momentos de fúria.
A relação é abalada quando uma família de alta classe social muda-se para a propriedade vizinha, atraindo a atenção não apenas de Catherine, como também de seu pai, que vê numa possibilidade de aliança conjugal de sua filha com o chefe solteiro da família Linton a única maneira de a mesma alcançar um futuro minimamente digno pra si. Não entrarei mais em tantos detalhes para eventualmente não estragar a experiência de quem ainda não viu o filme enquanto lê esse texto, mas basta dizer que a chegada dos Linton é o estopim de uma série de uniões, intrigas e traições, algumas destas mais contidas, outras mais absurdamente claras, que acaba aproximando e distanciando os protagonistas de tempos em tempos, numa crescente de sentimentos extremamente intensos. O que justifica eu ter iniciado esta crítica refletindo sobre o complexo sentimento que chamamos de “paixão”.
O fiz, pois, para mim, a paixão é o mote do filme do início ao fim. E mesmo que pareça que estou tentando definir de forma simplória a obra , a verdade é que a complexidade do termo e do que seu significado representa em nossas vidas e emoções, faz do filme quase um tratado sobre as relações humanas. E se também pareço estar sendo exagerado nessa descrição, é apenas por ter sido afetado por essa mesma paixão que transborda do filme e respinga em nós espectadores. E o mais apaixonante é a óbvia paixão com que Emerald Fennell fez deste um filme da Emerald Fennell.

É apaixonante ver a forma como a autora lê este romance, algo ao mesmo tempo erótico e melancólico, destacando em muitas sequências a dor que esta paixão causa nos dois protagonistas, seja quando esperam um pelo retorno incerto do outro, seja quando beijam-se acaloradamente (mal) escondidos de um entorno opressor, ou a tentativa débil de fingir descaso perante seus próprios sentimentos. O simbolismo de cada frame e cada cena, as cores extremamente destacadas influenciando o tom desejado para cada momento, é tudo um exagero que exala breguice em cada detalhe, e até mesmo os diálogos são quase vergonhosos de tão hiperbólicos, exprimidos por vozes roucas e cochichadas ou por berros irritantes. Tudo isso representa perfeitamente o descontrole absurdo do que são as paixões humanas. Tudo é muito absurdo e ridículo, e tudo é delicioso de se acompanhar.
A direção de Fennell continua numa evolução impressionante desde seu primeiro trabalho, com a segurança de quem sabe exatamente o que quer transmitir e de quem associa essa vontade com o majestoso trabalho de uma equipe que obviamente a compreende. A fotografia de Linus Sandgren (um dos grandes nomes desta geração de diretores de fotografia) é extremamente competente em acompanhar a artificialidade que o filme exige, unindo-se a cenários que parecem ter saído algumas vezes de sonhos outras de pesadelos horrendos, iluminados (ou não) para ressaltar essa atmosfera surreal. Os figurinos falam tanto quanto os personagens, e são tão espalhafatosos quanto estes. E a trilha musical (uma parceria muita bem-vinda entre Anthony Willis e a diva Charlie XCX) completa perfeitamente esse festival de excentricidades e excessos.
Margot Robbie e Jacob Elordi são por si só uma destas extravagâncias do filme, e foram, também por isso, uma escolha excelente para os papéis. Ambos são dois dos nomes mais badalados do atual star system hollywoodiano, o que colabora com a aura de irrealidade que o filme necessitava. Já chegamos ao filme sabendo que iremos ver mais do que dois atores interpretando personagens, mas figuras icônicas quase divinais no panteão contemporâneo da cultura pop. E o destaque dos dois entre o elenco neste aspecto também parece ter sido uma decisão pensada, e claro, para além disso é difícil não se agradar com o magnetismo dos dois (seja entre si, seja nos afetando pessoalmente), assim como é difícil afirmar que não são talentos natos que também entenderam a perspectiva da autora e tornam-se eles mesmos coautores da obra.
Mas este destaque no casal protagonista não denota de forma alguma uma ausência de personalidade e competência nos coadjuvantes. Desde Martin Clunes como o velho Earnshaw, representando a degeneração de um homem cada vez mais em frangalhos, ou a volúpia patente do casal de criados Joseph (Ewan Mitchell) e Zillah (Amy Morgan), fundamentais para o desabrochar da sexualidade de Cathy e Heathcliff, passando por Edgar Linton (Shazad Latif), propositalmente apático e quase sem nenhuma luz própria, e sua irmã Isabella (Alison Oliver), uma das maiores modificações em relação a obra original. No livro, a posterior relação de Isabella e Heathcliff é um dos pontos mais críticos de Emily Brontë à sociedade da época, uma relação claramente abusiva que aos poucos destrói a moça, chegando a aludir algumas vezes até a abusos sexuais; já no filme, ainda que haja o abuso na relação, as reações de submissão de Isabella perante Heathcliff podem ser lidas como uma leitura fetichizada da personagem, mas que para mim dão uma camada ainda maior de complexidade para a mesma, conduzindo sua narrativa de forma inesperada e fazendo de seu arco um dos mais interessantes dentre os poucos coadjuvantes do filme.
Mas a melhor coadjuvante e, para mim, uma ótima surpresa, foi a Nelly interpretada por Hong Chau. No livro a dama de companhia é uma personagem pouco ativa, servindo mais como condutora da narrativa, já que é ela que conta toda a história das desventuras das famílias que se entrelaçam (embora isso pra mim sempre tenha sido uma excelente ideia, já que pode nos dar a perspectiva de que tudo não passa de uma interpretação do ponto de vista da própria Nelly de toda a história, ao mesmo tempo que torna o livro uma bela de uma enorme fofoca). Mas no filme o roteiro de Fennell e a interpretação magistralmente fria de Chau transformam Nelly em uma coadjuvante que passa longe da passividade, manipulando todos os outros, ouvindo e se aproveitando de informações privilegiadas sendo a única confidente de Cathy, enquanto demonstra enorme profundidade contrastando um egoísmo (e o background da personagem é maravilhoso, o que não temos no livro) e uma empatia no terço final da obra que torna a personagem tão apaixonante quanto os protagonistas.
Por fim (e olha que se deixasse eu ainda falaria mais e mais sobre esse filme), talvez seja interessante pontuar que outra decisão tomada pela autora foi a supressão do arco final do livro, envolvendo uma segunda geração de Heathcliffs, Earnshaws e Lintons, algo que pode ser estranho para os fãs da obra original, mas que para mim foi a pitada final de tempero que torna o longa uma obra única que vai além de uma simples adaptação do clássico. Encerrar a história naquele ponto deixa um gosto amargo na nossa garganta, mas é aquele gosto que as paixões costumam deixar em nossas gargantas, é bom e ao mesmo tempo ruim, é doce e ao mesmo tempo azedo, é simples e ao mesmo tempo complicado. Mas certamente é um retrogosto que não vai ser facilmente esquecido ou pior… superado.


