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O Agente Secreto: em tempos de cinema brasileiro

  • Foto do escritor: Thiago Henrique Sena
    Thiago Henrique Sena
  • 27 de jan.
  • 5 min de leitura


Premiado em Cannes, no Globo de Ouro e indicado ao Oscar, O Agente Secreto (2025), com direção de Kleber Mendonça Filho e grande equipe e elenco, reúne diversas outras indicações e estatuetas. Sem dúvida, um grande momento para o cinema brasileiro, com visibilidade internacional, pelas críticas e prêmios, e carinho do brasileiro, que vê na obra motivos para se orgulhar das nossas produções.


O longa conta com aproximadamente 2 horas e 40 minutos e explora, principalmente, questões envolvendo o passado e o presente, sem deixar de lado a memória dos que foram torturados e mortos durante um dos períodos mais nefastos da história brasileira do século XX. A cidade do Recife da década de 1970 é o próprio agente narrativo, tornando-se uma paisagem misteriosa e, juntamente com o clima opressor, deixa a atmosfera da trama em um tom de paranoia e desconfiança constante do protagonista Marcelo (interpretado por Wagner Moura) e do público, que não sabe o que esperar no próximo plano.


A produção obedece e até subverte certos aspectos do gênero. Jean-Claude Bernardet, na introdução de seu livro Brasil em Tempo de Cinema, destaca: “Muitos fizeram filmes à base de fórmulas estrangeiras, principalmente norte-americanas, como o western ou o policial, pois pensou-se ingenuamente (e muitos continuam pensando) que bastava adotar fórmulas de sucesso para que os filmes se pagassem, sem perceber que essas fitas estrangeiras pagavam-se por ter à sua disposição uma estrutura de distribuição.”. O livro do pesquisador, voltado principalmente para o período entre 1958 e 1966 do cinema brasileiro, aponta essa tendência dos cineastas nacionais, ainda hoje persistente. É interessante ressaltar a adaptação de elementos fílmicos e de linguagem que os realizadores brasileiros fazem. Não se trata de uma mera reprodução do estrangeiro, mas de uma apropriação para a criação de algo organicamente nacional. Kleber Mendonça Filho faz isso muito bem desde O Som ao Redor; no trabalho mais recente, destaco a presença de signos de thrillers políticos, mas tratados dentro do nosso contexto social, histórico e cultural. É uma marca do diretor recifense, perceptível seja em entrevistas, seja analisando sua própria cinematografia.


Contudo, não só dessa influência estrangeira a obra se sustenta (longe disso); além de uma reflexão sobre nossa história e memória, há nela uma clara mensagem aos artistas e ao meio cinematográfico brasileiro, seja por meio do histórico Recife e suas paisagens, das salas de exibição, dos projecionistas (aqui representados pelo Seu Alexandre interpretado por Carlos Francisco) e diversos outros elementos apresentados ao longo do filme. Essa disposição reflete inclusive na escolha das personagens e seus nomes: o protagonista Marcelo, um professor, intelectual e pesquisador universitário que busca reencontrar o filho para poder sair do país, pois é perseguido e jurado de morte, é (ou pode ser entendido) como uma referência a outro personagem homônimo, do clássico O Desafio (1965), de direção de Paulo César Saraceni. Segundo ainda Jean-Claude Bernardet: “Marcelo, sem ter tido uma atuação política específica, deve ter vivido intensamente a onda desenvolvimentista do início dos anos 60, deve ter acreditado plenamente na renovação do país e na força do chamado movimento de esquerda, que não tinha bases e foi desbaratado em 1964. Após a mudança de regime, grande parte da esquerda e da intelectualidade brasileira, que se nutria mais de mitos e esperanças que de um real programa político e social, entrou numa fase de marasmo, encontrou-se sem perspectiva, sem saber que rumo tomar, e a palavra mais usada para caracterizar seu estado psicológico e suas hesitações foi certamente perplexidade. É esse o estado que analisa Saraceni, tanto no plano da vida sentimental de Marcelo como no plano das idéias e da ação.”.


Marcelo (2025) representa o ápice da narrativa de O Agente Secreto, seja pelas suas ambiguidades, um personagem misterioso cuja identidade o roteiro revela aos poucos, bem como sua história, os motivos de sua perseguição e, principalmente, o contexto social que se vivia na década de 1970. Apesar do filme tratar quase exclusivamente de uma classe média, em sua maioria intelectualizada, ela cumpre bem o papel de denunciar os crimes que ocorriam a quem era contra o regime, seja pelos segmentos da Perna Cabeluda, a entrevista dada na cabine de projeção, no flashback envolvendo Fátima, esposa de Marcelo, interpretada por Alice Carvalho, passando pela morte da criança da empregada e pela tentativa de proteção da patroa. O projeto expande bem seu universo para muitas camadas. O elenco é vigoroso, com destaque para Wagner Moura, que entrega uma atuação cheia de nuances e profundidade que o papel exige, e transita muito bem entre suas emoções: o medo, o riso, o choro, a apreensão.



Alguns pontos do longa podem ser entendidos como aspectos positivos ou negativos, a depender do espectador. O fato dele ter quase 3h e demorar um pouco para desenvolver a história, ou apresentar subtramas demais, ou ainda ter um arco no presente são os meus destaques do que pode ser esse divisor de águas no entendimento do público. Pessoalmente, entendo que o arco que se passa atualmente pode quebrar um pouco o ritmo do filme, principalmente se pensarmos naquela ideia de montagem que Jacques Aumont analisa como sendo o cerne da obra fílmica; contudo, essa quebra de ritmo me parece ser proposital para gerar um debate em torno da memória e do esquecimento, seja da pessoa ou do espaço (o cinema). Acredito que sem essa parte o filme pudesse ser menos cansativo, contudo, seria também menos provocador. Outro ponto que, nesse caso, eu considero um aspecto não muito favorável é o uso constante de diálogos explicativos; a linguagem cinematográfica é predominantemente vídeo e áudio, e o uso constante de falas para retomar uma ideia ou reforçar um posicionamento diminui o impacto de determinados enquadramentos e, consequentemente, empobrece visualmente. É aquela máxima: “mostre, não fale”; apesar de ser algo recorrente em O Agente Secreto, não diminui a beleza da sua direção e do seu som, elemento que, pessoalmente, considero o ponto alto da experiência.


O próprio Kleber, em entrevistas e em suas redes, reconhece a importância da projeção e do som para o ambiente da sala escura. Estar ali dentro é mais que assistir a um filme, é uma vivência social e cultural. Saber usar esses elementos na construção da linguagem audiovisual é algo que poucos cineastas conseguem. Nesse caso, em O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho e sua equipe de som conseguem com êxito. A mixagem adiciona camadas narrativas que muitas vezes se sentem, mas não se veem. Há elementos que são reforçados e/ou amenizados, tudo a partir do áudio, e isso contribui muito para a imersão. Destaco duas sequências: a inicial no posto de gasolina, onde a sonoridade cria todo um ambiente de tensão, medo e vontade de escape, que reforça a atuação de Wagner e entrega ali uma das cenas mais interessantes da obra; a outra é quando o personagem Marcelo desliga o telefone e precisa se direcionar aos correios para enviar um telegrama. Aqui, o ritmo da montagem segue a música de Ennio Morricone e entrega uma das transições mais inesperadas e agradáveis do filme.


O Agente Secreto, por esses motivos, deve ser visto no cinema, compartilhado e debatido, seja logo após os créditos ou em fóruns da internet. A ideia de ir a um local e ficar quase 3h diante de uma tela com outras pessoas que muitas vezes não são conhecidas, sair da sala e ouvir o burburinho, conversar e trocar ideias com amigos é uma experiência que filmes como este proporcionam, apesar de pequenos pontos fracos, de alguns excessos e das possíveis críticas, ele fomenta um diálogo sobre arte, sociedade e história. Algo necessário e bem-vindo na nossa sociedade atual. 


 
 
 

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