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“Marty Supreme”: Timothée Chalamet brilha no vertiginoso drama de Josh Safdie sobre ambição e trambiques

  • Foto do escritor: Marcus Barreto
    Marcus Barreto
  • há 5 dias
  • 5 min de leitura


Podemos considerar que 2025 ficará marcado pela separação criativa dos irmãos Safdie. Embora não seja a primeira vez que Benny e Josh sigam caminhos distintos, e tampouco saibamos se essa ruptura é definitiva, esta talvez seja a mais emblemática. O motivo é simples: ambos lançam seus respectivos filmes no mesmo ano, despertando grande expectativa e curiosidade do público diante de propostas tão pessoais quanto contrastantes. Enquanto Benny Safdie apresenta “Coração de Lutador”, Josh Safdie entrega “Marty Supreme”, uma experiência cinematográfica hilária e deliberadamente caótica, e aqui o caos funciona como elogio. Para muitos espectadores e críticos, o filme não apenas se destaca dentro da filmografia do diretor, como também desponta como um dos grandes filmes de 2025.


Ambientado em uma Nova York pulsante do pós-guerra, “Marty Supreme” apresenta Marty Mauser, vivido por Timothée Chalamet, como um sujeito aparentemente comum, preso à rotina modesta da loja de sapatos do tio, mas movido por uma ambição desproporcional ao espaço que ocupa. Entre flertes perigosos com a esposa do vizinho, papel que Odessa A’zion interpreta com frescor, e conversas atravessadas por delírios de grandeza, Marty enxerga no improvável universo do pingue-pongue a promessa de ascensão. Não se trata apenas de vencer partidas, mas de reinventar o jogo, transformar uma obsessão em identidade. Ao lado do leal Dion (Luke Manley), ele embarca em um plano tão absurdo quanto revelador: seduzir o pragmatismo do capital para bancar uma bola laranja “ilegítima”, símbolo de um protagonista que se recusa a existir dentro das regras convencionais, um sonho pequeno demais para o mundo real, grande demais para ser ignorado.


Ao se afundar em pequenos esquemas e decisões cada vez mais questionáveis, Marty acaba cruzando o Atlântico rumo a um torneio de tênis de mesa no Reino Unido, uma viagem que funciona menos como conquista esportiva e mais como catalisador narrativo. É nesse deslocamento que ele conhece Kay Stone (Gwyneth Paltrow), uma socialite de aura melancólica e passado artístico, e seu marido, o magnata Milton Rockwell (Kevin O’Leary), figura que encarna o poder econômico em seu estado mais cínico. O encontro, carregado de tensão e ironia, reorganiza não apenas o destino de Marty, mas também o equilíbrio daquele casal. Ainda assim, Josh Safdie deixa claro que o desastre era inevitável: com ou sem eles, o protagonista seguiria arrastando quem cruzasse seu caminho para dentro do turbilhão de sua ambição, sustentado por um carisma tão sedutor quanto autodestrutivo.


Embora “Marty Supreme” se apresente, à primeira vista, como um filme sobre esporte, ele rapidamente desmonta qualquer expectativa de acompanhar a trajetória clássica de ascensão de um atleta. O tênis de mesa aqui não é um fim, mas um espaço simbólico: uma arena onde Marty Mauser testa sua capacidade de impor presença, um trampolim para algo maior. O verdadeiro tema do filme é a ambição em estado bruto, o desejo operando como estratégia de sobrevivência, a autoconfiança funcionando como uma moeda que Marty gasta antes mesmo de possuí-la. Partindo de uma existência sufocante e degradada, em que “sonhar grande” soa quase como sarcasmo, jornadas exaustivas na loja de sapatos, um apartamento minúsculo e decadente, noites encarando o teto enquanto imagina um futuro invisível aos outros, Marty não se contenta com a ideia de apenas escapar daquele lugar. Ele quer ascender, rapidamente, e sobretudo sob o olhar atento de quem duvidou.


A partir daí, o longa passa a alternar com fluidez entre as competições de pingue-pongue e os trambiques que Marty Mauser arquiteta, ou tenta colocar em prática. Em meio a esse percurso instável, ele ocasionalmente encontra aliados, como o amigo Wally, interpretado por Tyler, The Creator, cuja presença adiciona ainda mais imprevisibilidade à narrativa. Mentiras que se sobrepõem, fraudes cada vez mais ousadas, esquemas engenhosos e planos que inevitavelmente desmoronam transformam o filme em uma sucessão vertiginosa de episódios à beira do colapso. O resultado é uma experiência elétrica, marcada por um ritmo incessante, que mantém o espectador imerso em um estado constante de tensão, caos e adrenalina do primeiro ao último minuto.


A engrenagem que sustenta e acelera esse ritmo frenético atende pelo nome de Timothée Chalamet. O ator entrega aqui uma de suas performances mais afiadas, investindo Marty Mauser de uma autoconfiança quase agressiva, marcada por energia explosiva, arrogância calculada e um olhar permanentemente tomado pela ganância. Essa combinação não apenas define o personagem, como o transforma em um vigarista carismático, impossível de ignorar. É possível que Chalamet esteja despertando certa irritação fora das telas, especialmente pelo entusiasmo quase excessivo na autopromoção do filme, mas, após assistir ao longa, esse comportamento ganha contornos curiosamente coerentes. Há ecos evidentes de Marty no momento público vivido pelo ator, como se Chalamet ainda estivesse sob o efeito colateral do personagem, preso a uma ressaca criativa que prolonga, para além da ficção, a autoconfiança desmedida de Marty Mauser.



O restante do elenco principal acompanha esse nível com segurança. Odessa A’zion está longe de soar como uma simples revelação, seu nome já vinha em franca ascensão, mas “Marty Supreme” consolida de vez seu espaço, indicando que papéis ainda maiores devem surgir a partir daqui. Gwyneth Paltrow retorna com naturalidade ao centro da cena, recuperando sem esforço o magnetismo, a elegância e o controle que a tornaram uma das grandes presenças de sua geração. Já Kevin O’Leary faz da própria arrogância um trunfo dramático: sua persona encaixa-se perfeitamente no empresário que interpreta, resultando em um antagonista genuinamente repulsivo, cuja presença funciona como o contraponto ideal à ambição desmedida de Marty.


Darius Khondji constrói uma fotografia que abraça a sujeira dos cenários de forma deliberada, evitando qualquer tentação de embelezamento ou enquadramentos de cartão-postal. Sua câmera insiste no suor, na aspereza da luz e na materialidade dos espaços, evocando com precisão o espírito das ruas de Nova York da época. O efeito é paradoxal e potente: um filme que parece simultaneamente imundo e luminoso, onde o mundo se revela feio, mas o sonho permanece intensamente radiante. Em sintonia com essa estética, Daniel Lopatin assina uma trilha sonora que vai além de sublinhar a tensão, ela a amplifica. A música empurra o ritmo narrativo como se também estivesse embriagada pela autoconfiança excessiva de Marty, contaminando cada cena com inquietação e impulso.


Em determinados momentos, “Marty Supreme” dá a impressão de abrigar dois filmes distintos em seu interior: de um lado, a engrenagem dos trambiques e golpes; de outro, as sequências de pingue-pongue. Curiosamente, essa divisão não enfraquece a obra, pelo contrário. Mesmo não sendo o eixo central da narrativa, as cenas do esporte são encenadas com tamanha precisão e energia que se tornam um espetáculo à parte. Safdie explora a velocidade, o ritmo e os efeitos do jogo de forma tão inventiva que essas partidas amplificam a tensão geral do filme. É um daqueles casos raros em que, se o longa fosse apenas sobre pingue-pongue, o público ainda assim sairia plenamente satisfeito.


“Marty Supreme” está muito distante de funcionar como uma fábula edificante sobre disciplina ou espírito esportivo. O filme se afirma, antes de tudo, como um retrato cru da ambição, uma força que seu protagonista precisa exibir, sustentar e performar constantemente. Diferente de tantas narrativas que se apressam em oferecer uma mensagem reconfortante ao final, Josh Safdie se recusa a esse gesto. Aqui, vencer significa se dar bem a qualquer custo. Marty quer alcançar o seu “supremo”, mesmo que isso exija atravessar caminhos feios, sujos e moralmente indefensáveis. O maior acerto do filme está justamente em negar qualquer arco de redenção: o personagem não busca se tornar alguém melhor, não aprende uma lição e tampouco sente vergonha do que é. Ele permanece fiel à própria natureza, e o filme não pede desculpas por isso.

 
 
 

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