• Rodrigo Passolargo

Marte Um (2022): Aquela gravidade que nos empurra para baixo

Texto por Rodrigo Passolargo

Deivinho encara um céu diferente do que entusiasmadamente contempla: fogos de artifícios misturados aos gritos de exaltação ao presidente eleito em 2018. É um garoto bom de futebol que sonha em ser astrofísico e ir à missão Marte Um em 2030. Sua irmã mais velha, Eunice, conhece Joana e iniciam o namoro. O pai Wellington é porteiro de um condomínio de classe média e aposta na carreira futebolística do filho. A mãe, Rejane, é diarista e procura manter a harmonia dentro do lar. Após aquele céu de 2018, as coisas orbitariam diferente.


Segundo Machado de Assis, há dois Brasis. O Brasil Oficial é o país dos privilegiados, dos favorecidos, dos caricatos e burlescos. O Brasil Real é o país dos necessitados, dos pobres e que revelam os melhores instintos. Longe do nosso maior escritor brasileiro ser um astrofísico, mesmo que suas palavras já indicavam figuradamente que o Brasil Oficial até podia ter dois pesos e duas medidas, enquanto o Brasil Real não teria seu cotidiano regido pelas Leis de Newton - assim como a família de Contagem/MG narrada em Marte Um, dirigido por Gabriel Martins, que ganhou os prêmios de Melhor Filme Júri Popular, Melhor Roteiro, Melhor Trilha Sonora e Prêmio Especial no 50° Festival de Cinema de Gramado, além de ser indicado a tentar uma vaga no Oscar 2023.


Se a Primeira Lei diz que “todo corpo permanece em estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele”, no Brasil Real, não existe repouso ou mesmo linha reta. Mesmo assim, ele é sempre forçado a mudar seu estado mais ainda diante da força opressora aplicada sobre ele.


A Segunda Lei discorre que “a mudança de movimento é proporcional à força motora imprimida, é produzida na direção de linha reta na qual aquela força é aplicada.” Mas a realidade é que a mudança não é proporcional, pois quem exerce a força contra o brasileiro necessitado nunca a faz de modo hercúleo. Exercê-la é tão simples quanto um hábito de escovar os dentes em pias de ouro. A cadeia de consequências são magnetizadas para o povo. Danos indiretos com consequências desastrosas e atemporais.


A Terceira Lei fala que “toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos.” Aqui, a reação oposta nunca é igual, pois não há igualdade de seus opostos. A fagulha de reação é a resistência reside na coletividade.


Até com impasses narrativos como a diluição e pressa na apresentação dos núcleos, afastando inicialmente Deivinho dos demais, ao final Marte Um acopla as partes de sua estação e toma propulsão numa sociedade onde sonhar é um privilégio. Que sonhar amparado por sua rede de proteção psicossocial diminui a força da gravidade que insiste em empurrarmos para o chão, nos afastando dos céus.


[Marte Um está em cartaz nos cinemas]