• Eric Magda

Língua Franca (2016): a potência do silêncio


Isabel Sandoval, esse é um nome merecedor de ficar para sempre nos livros de história sobre cinema. Uma mulher filipina e diretora de cinema. A primeira mulher trans com um filme no Festival de Veneza. Antes de "Língua Franca", sua jornada como diretora começou com o longa-metragem Sañorita (2011), seguido por Aparisyon (2012). Seus filmes são bem únicos e abordam diferentes temáticas e visões e sua carreira vem dignamente recebendo um certo reconhecimento após este terceiro longa.


Em meio a caça de imigrantes ilegais no Governo Trump, acompanhamos a vida de Olivia, uma imigrante filipina e também cuidadora de uma senhora idosa de origem russa. A personagem é interpretada pela própria diretora (como ela, também uma mulher trans), que assina também o roteiro, a produção e a montagem do filme. Acompanhamos sua vida enquanto ela trabalha e economiza dinheiro para pagar ao homem com quem vai se casar. Cada vez mais a personagem busca fugir do fantasma da deportação.


No roteiro, a história fala sobre muitas coisas e, diferentes de muitas obras, não o faz de forma gritante. Existe muito silêncio trazendo mais atenção para os problemas aprofundados e também àqueles não aprofundados. A própria diretora já mencionou em entrevistas sobre a importância das camadas e também da complexidade escrita, que é percebida pela mesma em suas histórias e em seus personagens. O filme não grita nada contra o governo, ele nos mostra a personagem imigrante em constante tensão e medo de ser descoberta.


Diferente de muitas outras obras protagonizadas por personagens trans, o filme não fala sobre aceitação, descoberta ou cirurgia. Temos no longa uma protagonista cuja trama não gira ao redor do fato dela ser trans, isso é apenas uma parte de sua identidade. O fantasma da deportação é o verdadeiro tema da obra, é o combustível responsável por mover o enredo e a personagem. Afinal, a negociação de um casamento com um homem americano está acontecendo exatamente porque ela precisa de seu visto e é a partir deste conflito que podemos mergulhar mais na trama da personagem.


Passando pelo atual e ao mesmo tempo atemporal enredo sobre imigração, o filme é muito movido por seus personagens e seus conflitos – internos e externos. Apesar da protagonista ter seu próprio arco, somos apresentados também ao neto da senhora de quem Olívia cuida. Alex (Eamon Farren) vive um personagem cheio de conflitos internos, com alcoolismo, com sua família, com o mundo em si. O personagem passa a morar com a avó e é introduzido à nossa protagonista, cuidadora da mesma, e há uma tensão romântica e sexual construída entre os dois.


Ao longo do filme podemos conhecer também mais da relação da personagem principal com sua família, a quem a mesma consegue ajudar financeiramente de longe. As interações da personagem com sua mãe, mesmo acontecendo apenas por ligações telefônicas, são essenciais para a construção de todo o arco da personagem. Ali nos EUA ela pode conseguir dinheiro para ajudar a família, não estendida apenas à sua mãe, e por isso a deportação é um risco e tanto. Ivory Aquino interpreta uma amiga de Olivia, também transexual e das Filipinas, e a relação de amizade e companheirismo é presente em toda obra.


Reverberando em vários níveis com o mundo atual e sendo capaz de dizer muito sem ser necessário gritar, Língua Franca se consolida de forma particular como uma obra sensível. Seu enredo contém muitas nuances tratadas de forma bem original e também subjetiva, permitindo-se ser potente e não prepotente. É inegável o fato de Isabel Sandoval ter deixado suas digitais ao longo da obra, especialmente reconhecendo o quanto dela acaba sendo carregado para o longa. Língua Franca não é um filme para dizer o que é certo ou errado, mas sim uma obra para narrar uma realidade presente no mundo de uma forma não comumente narrada.

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