• Rodrigo Passolargo

Green Grass (2022): Nas Brumas da Insula Perdita

Texto por Rodrigo Passolargo

Nas palavras de Plínio (II, 96), certas ilhas flutuam sempre.


Após um terremoto, Makoto Kondo acorda às margens de uma praia desconhecida. Buscando retornar a sua vida, depara-se com estranhas pessoas que podem indicar onde está e como sair. Do outro lado, seu pai perambula na solidão das lembranças.


O diretor Ignacio Ruiz assina um tom nublado em sua atmosfera fílmica para assim mergulharmos junto com Makoto em suas questões. É discreta a alternância com o arco de seu pai, onde o ar umbrático é figurado de outro modo. Destina-se então seus cem minutos na calma e misteriosa imersão nos não-lugares desses dois vagantes. Mas como diz o ditado “Nem todo vagante é vadio”.


São muitos os não-lugares que o filme insere nas penumbras silenciosas de sua história. Na esperança do retorno, Makoto acompanha misteriosos personagens que expressam uma ambiguidade passiva, aumentando as sensações de círculos e grilhões entre florestas e praias. Tais traços narrativos lembram os relatos do monge de Saltey sobre o purgatório:


“O purgatório é uma sucessão de lugares que se encontram no mesmo plano, percorre-se por meio de um caminho plano, sem subidas ou descidas. E trata-se de um lugar aberto, cujos limites se vêem, do qual se pode sair ou fugir. (…) numa altura em que esse sistema do purgatório não está ainda bem constituído.”

(LE GOFF, Jacques. O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval. Lisboa. Edições 70 Lda., 2010).


Se as caronas que Makoto pega não o leva a direção nenhuma, o mesmo não acontece com seu pai. Enquanto Makoto é retratado nessa espécie de purgatório ligada ao espaço, seu pai caminha por ruas mais mundanas amarradas ao tempo. Um tempo que percorre a melancolia de seu olhar. Não menos encarcerado, ele busca o escape pelos signos que conecta ao filho.


O filme nipo-chileno pode ter um aspecto demasiado contemplativo e descansado com pouquíssimos momentos de agitação. Mas se o faz, é justamente para quebrar esse sistema espacial e temporal que antecede a problemática. Os pares baixo-alto, ir-voltar, um-outro, interior-exterior se aproveitam das brumas que cercam seus personagens para estimular um pensamento de que pode existir algo entre essas dúplices.


Green Grass deve estar no não-lugar que Umberto Eco descreveu em seu Histórias das Terras e Lugares Lendários. Contos que a Fada Morgana enganava os moradores das ilhas de Madeira, de Palma, de Gomera e do Ferro com grandes nevoeiros. E mesmo embaçados, habitantes afirmam terem visto a insula perdita na linha que divide o mar e o firmamento.


Uma linha onde nascem verdes gramas.