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  • Messias Adriano

Dossiê 21º Noia: retorno às narrativas

Messias Adriano compôs o Júri da Crítica do 21º Noia - Festival do Audiovisual Universitário com Antonio Lima Junior e Mylena Gadelha.


Um dos prazeres de assistir a vários curtas em sequência é poder navegar por uma amplitude temática e estilística diversa em um breve espaço de tempo. Somos transportados de mistérios com fantasmas a comédias do cotidiano, de obras intimistas a críticas fortes contra injustiças, tudo em um tempo menor do que ocorreria em uma sequência de longas-metragens.


O que mais se viu no 21º NOIA - Festival do Audiovisual Universitário, no entanto, foi um destaque para denúncias sociais, seja em relação ao machismo velado travestido de apoio à causa, ou em relação à de falta de oportunidades que a dinâmica do capital impõe. Em Cabiluda (PE), por exemplo, aColleto e Dera Santos adaptam de forma criativa uma lenda antiga para os tempos e para discussões atuais, fazendo uma perna cabeluda escolher as vítimas de forma justificada. Tematicamente, faz muito sentido a perna ser feminina.


Dois No Asfalto (RJ) e Fique Na Luz (SP) trazem um recorte do cotidiano de parças que tentam sobreviver financeiramente na cruel “roda de hamster” de um mundo que lhes nega oportunidades de berço. Enquanto tentam crescer profissionalmente rumo ao sonho de viver daquilo que gostam, precisam pagar aluguéis atrasados, precisam fazer entregas de delivery e precisam aturar grosserias e injustiças. Pode chamar de pessimismo ou de realidade.


Sob outro aspecto, houve também leituras mais doces e esperançosas. Irã (SP) faz um trabalho notável com a direção de arte e figurino ao utilizar barbantes no corpo do protagonista e único personagem, que busca ordenar o desalinho emocional que lhe aflige. E “pôr em ordem” é justamente a tradução literal do termo francês mise en place, mas que é utilizado no mundo culinário para dar nome àquela preparação da cozinha antes do início da elaboração dos pratos (sim, eu sou formado em muitos episódios de Masterchef Brasil). Na animação paulista Mise En Place (SP), um jovem sai em busca da origem dos pratos e temperos que sua avó fazia e acaba redescobrindo a paixão pela culinária que estava adormecida. Põe em ordem a própria vida que tem pela frente.


Em oposição, o ocaso da vida é a temática de Através dos Sentidos (RJ), que traz Milton Gonçalves em um dos seus últimos papéis. O curta inicialmente chama atenção pelo alto valor de produção envolvido, sendo perceptível como se distancia dos outros filmes da Mostra Nacional nesse aspecto. Joga ao favor da obra o fato de que tudo isso é bem utilizado. Ao passear por momentos marcantes da vida do protagonista, o curta utiliza o som como fio condutor, indo do barulho alto do videogame que os netos jogam na sala, ao tique-taque crescente do relógio dentro quarto e ao som de uma música no rádio que desperta memórias.


O tique-taque do relógio e uma música no rádio também exercem um papel essencial em Parece Que Foi Ontem (MG), no qual acompanhamos uma senhora fazendo tarefas do cotidiano durante o dia e saindo para dançar durante a noite. É curioso como o curta utiliza a letra da canção escutada (“Majestade, O Sabiá”) para comentar o que ocorre com a protagonista: o momento que um despertador toca é também o momento que Chitãozinho & Chororó cantam: “Esta viagem dentro de mim foi tão linda / Vou voltar à realidade pra este mundo de Deus”. Em mãos erradas, poderia soar pretensioso, assim como as passagens de uma chama em um palito de fósforo se apagando, mas o tom do curta sabe aproveitar isso de forma discreta. Com um final entre o misterioso e o melancólico, o filme é um dos melhores da Mostra.


Nos documentários, Quinze Primaveras (CE) acerta ao apostar em uma protagonista espirituosa e de hobby curioso. Quem diabos coleciona fotos e filmagens de festas de 15 Anos dos outros? Ravena faz isso, mas para ela esses objetos não são só registros do passado aleatórios, são “sonhos e romantismo” das princesas apresentadas ao mundo naquele momento. O passado de traumas da protagonista não é aproveitado de maneira exploratória, mas no tom correto que a narrativa precisa.


Quem também acerta o tom é Cabocolino (PE), cuja montagem poderia cair na armadilha de estender-se em momentos tocantes (a esposa se despedindo do marido, João de Cordeira explicando o objetivo para a freira), mas corta no timing ideal, antes que as passagens se tornem piegas demais em um filme que não tem esse fim. A jornada de Seu João traz na veia o sincretismo de fé que forma o sertão e o Nordeste, das tradições indígenas a Padre Cícero. Ancestralidades herdadas e traduzidas, por exemplo, através do som, quando na cena de abertura fundem-se a cantiga dos pássaros, a música dos pífanos e as batidas do coração.


Comparado com as edições mais recentes do festival, é um alívio perceber a diminuição das narrativas pandêmicas, o encolhimento dos personagens mascarados falando ou sofrendo com o isolamento. Seja pelos conceitos historiográficos de “flecha” ou “bumerangue do tempo”, explicados em Cidade Sempre Nova (RN), a sensação é de evolução, de que o pior já passou, e isso é refletido também na produção audiovisual.


Resta-nos aproveitar essa mudança e retornar às narrativas diversas do Cinema, sejam elas escapistas ou de denúncias sociais, diversidade bem-vinda e bem representada na seleção dos filmes do 21º NOIA. Que venham as outras edições.

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