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  • Antonio Limar Junior

Dossiê 21º Noia: Fragmentos do audiovisual universitário

Antonio Lima Junior compôs o Júri da Crítica do 21º Noia - Festival do Audiovisual Universitário com Messias Adriano e Mylena Gadelha.

A edição deste ano do NOIA – Festival do Audiovisual Universitário, em sua Mostra Competitiva Nacional, trouxe diversos panoramas do audiovisual produzido nas escolas e cursos de todo o país. Essa diversidade apresenta uma larga produção de curtas, mostrando que o nosso cinema está em eferverscência, com uma juventude que tem muito o que produzir pela frente.


O curta Cabocolino, premiado pelo júri da crítica da Aceccine, apresenta o fantástico e o popular, trazendo as tradições e as ancestralidades dos povos indígenas como os traços que regem nosso sertão. Relembra os dizeres do Padre Cícero sobre o ato de plantar em homenagem aos mortos, cuja jornada encerra aos pés da sua estátua, na esperança que as gerações futuras façam o mesmo. Relembra também os contos da lua vaga, com a impecável trilha sonora da banda de pífanos de Surubim, onde o cinema atravessa fronteiras.


Não posso deixar de comentar sobre os curtas cearenses presentes na Mostra Nacional. Em As Velas do Monte Castelo, o curta abre e encerra com músicas populares, conduzindo a narrativa sob uma crônica do cotidiano. A rotina é narrada por uma câmera observadora, uma mãe dona de casa, seu filho ainda criança, estudando, e o pai que retorna do trabalho com uma pizza. Essa leveza do cotidiano nos conduz ao cinema contemplativo, da graça dos fazeres de personagens simples porém de uma riqueza poética.


O outro cearense é Quinze Primaveras, cujo jogo de cena, tal qual ao cinema de Eduardo Coutinho, consegue mesclar com habilidade elementos do real com a ficção, onde a atriz encena muito bem acima dos registros antigos, seja na fotografia ou nas fitas de vídeo. O curta estimula a imaginação do espectador, fazendo acreditar em tudo o que está dito ali.


Pra não dizer que não falei de outras fronteiras, destaco também o curta Através dos Sentidos, onde é simbólico ter o Milton Gonçalves interpretando um senhor no fim da vida, enquanto o ator nos deixou ano passado. Praticamente uma despedida. Aqui, a trajetória é contada através de conexões entre passado e presente, com pequenos gestos criando flashbacks por meio da sensibilidade da lembrança.


Vários curtas trouxeram alguns pontos de reflexão interessantes. Madrugada tenta uma imersão pelo mundo do trabalho a noite, mesclando com a busca pelo colega sumido. Parece que foi ontem termina com a solidão de quem dança sozinha na seresta, porém despretensiosamente, ao ponto de continuar dançando em casa, como no poema do Chacal. Fome aborda a disputa pelo direito a imaginação de uma criança em um ambiente simples.


Em linhas gerais, os curtas mostram uma diversidade do ambiente do cinema brasileiro, entre animações, mistérios e periferias urbanas. Predomina aqui a seleção de curtas nordestinos e sudestinos, mostrando o desafio de abarcar o todo do país, com tantos regionalismos. Ademais, surpreende a qualidade técnica de muitos, ao pensar que todos provém dos cursos de audiovisual, muitos ainda marcados pelas fraturas da pandemia e dos anos de desmonte da educação, cortando recursos que certamente afetam a produção audiovisual, sem falar nos cortes aos recursos próprios para a cultura, desde o encerramento do Ministério da Cultura.


O tempo breve do Festival deixou a vontade de ver mais e mais curtas. Com a missão cumprida de apresentar uma amostra do nosso audiovisual universitário, fica o desafio de circular essas produções, com o benefício do canal do Noia no YouTube, disponibilizando todos, um passo para trocar figurinhas com quem também está na missão de produzir curtas nos demais cursos espalhados pelo Brasil e além.

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