• Rafael Menezes

Dossiê VII Curta Vazantes: ferramenta de mudança

Rafael M. Vasconcelos integrou o Júri da Crítica com Arthur Gadelha e Thiago Henrique Sena. Confira os premiados aqui


Vou bater na mesma tecla, uma tão batida nos últimos meses: é um tempo muito estranho esse que estamos vivendo. Em se tratando de cinema especificamente, é um momento praticamente comatoso, mas que também propicia a reinvenção. Assim como em tantas outras áreas, o modelo online foi abraçado pelos festivais de cinema. Nesses moldes, aconteceu a VII Mostra Curta Vazantes – Cinema em Comunidade. Por um lado, temos um ganho enorme pelo alcance ilimitado, eu mesmo fiz questão de espalhar o convite a assistir entre amigos por todo o Brasil, mas, por outro lado, mata a magia do cinema de tela grande, da experiência coletiva. Infelizmente são tempos muito estranhos e temos que seguir nos adaptando, compreendendo os limites exigidos e seguindo em frente.


Participar do júri da crítica é sempre uma experiência muito boa, um exercício que serve para renovar a perspectiva sobre o cinema que vem sendo produzido e discutido. Primeiramente foi consenso entre os críticos que a curadoria do festival foi primorosa. O nível de qualidade das produções foi altíssimo, o que tornou nossa tarefa muito mais difícil. E não falo apenas em qualidade técnica ou de produção, mas os conteúdos abordados foram de fato muito diversos e relevantes. Acho que não conseguiria apontar uma obra sequer dentre as apresentadas que seja esquecível. Dentre tantos curtas brasileiros, achamos por bem fazer uma premiação dividida entre dois estados brasileiros. Divisão acabou sendo o ponto focal da nossa discussão, pois chegar numa unanimidade acabou se tornando uma tarefa impossível. E isso é ótimo! Eu, pelo menos, enxergo nessa divisão uma riqueza de discussão e, bom, os escolhidos estão aí para todo mundo ver.


Dentre os demais, gostaria de falar sobre duas produções espanholas e duas brasileiras que me tocaram bastante. Antes de La Erupción narra um pouco sobre um verão muito peculiar vivido por um grupo de amigos homens cis em que um deles, pela primeira vez, revela ao mundo se tratar de uma mulher trans. O roteiro compara essa mudança a uma erupção vulcânica, com um texto de muita sensibilidade, mas sem perder a objetividade ao tratar o tema. Roberto é uma animação belíssima, aliás, faço aqui um parêntese: um dos pontos que chamou atenção na seleção de filmes foi a quantidade de animações, uma categoria que normalmente acaba sendo relegada a exibições e prêmios específicos. Foi uma grata surpresa a inclusão dessas produções no rol de escolhidos. Voltando ao curta Roberto, a qualidade técnica é de fato incrível, como discutimos entre nós, não deve nada a um filme da Disney/Pixar. Além disso, o roteiro é muito acessível a todos os públicos e trata com delicadeza sobre um tema complexo, que é a autoimagem corporal. Sem dar spoilers, a mensagem final sobre o amor como ponto transformador é belíssima. Indo aos nacionais, já havia assistido a 4 Bilhões de Infinitos num outro festival e fiquei encantado com a singeleza na homenagem à sétima arte em que a história se traduz. A brincadeira de imaginar acaba sendo um dos motores principais de tantos realizadores do audiovisual e fiquei verdadeiramente emocionado com a forma que o curta mostra isso na tela. Outro filme que também lida com a forma como as crianças interpretam o mundo ao seu redor é Baile. Nele, a menina Andrea vê uma beleza aparentemente perdida sendo resgatada em rostos de senhoras idosas pelos retratos 3x4 que sua mãe faz. O curta fomenta outras discussões interessantes sobre política e terceira idade, de uma maneira muito orgânica e genuína.


Ao final de tudo, creio que temos uma lição para tirar dos dois indicados pelo júri da crítica, Neguinho e Terceiro Dia, a de que vivemos um momento estranho onde normalizamos o absurdo. Mas, ao mesmo tempo, temos exemplos constantes de luta contra essa lógica desumana, vemos que o sonho e o amor podem sim servir de combustível para uma quebra, que podemos ser atores de uma mudança e devemos ser. O cinema faz parte disso, enquanto arte, enquanto movimento cultural, enquanto ferramenta para uma outra perspectiva. São tempos realmente estranhos, mas vamos em frente!