• Beatriz Saldanha

Crimes do Futuro (2022): Cronenberg e o o amadurecimento de suas obsessões

Crítica publicada pela Autora no site Revista Diaboliques

Crimes of the Future (Mubi, título de streaming) ou Crimes do Futuro (O2, título de cinema) é o 22º longa-metragem do diretor canadense David Cronenberg, conhecido desde os seus primeiros filmes comerciais como “o rei do horror venéreo” e, mais adiante, como “o mestre do horror corporal”. Mas seu interesse na sexualidade – mais especificamente das desviantes – e nas transformações do corpo fica evidente desde os seus dois primeiros filmes estudantis: Stereo (1969), em que levanta uma discussão sobre binarismos e sugere a “omnissexualidade” como norma verdadeira, e Crimes do Futuro (1970). Apesar do título homônimo, este filme da juvenília de Cronenberg e seu longa mais recente compartilham apenas algumas semelhanças, como a premissa da doença que gera espontaneamente novos e misteriosos órgãos, removidos cirurgicamente, e uma certa noção de que a sexualidade como conhecemos está obsoleta.


Em Crimes of the Future (2022), Viggo Mortensen interpreta Saul Tenser, um homem que convalesce de uma síndrome que faz com que seu corpo gere novos órgãos cujas funções são desconhecidas. Ao lado da ex-cirurgiã Caprice (Léa Seydoux), ele transforma a doença em espetáculo artístico e a dupla performa cirurgias de remoção destes órgãos diante de um público curioso. Timlin (Kristen Stewart), que se define como “um pequeno inseto burocrático”, é uma destas pessoas fascinadas pela estranha condição de Saul e por suas performances grotescas e sensuais. A jovem trabalha no Registro Nacional de Órgãos, um bureau público responsável por protocolar novos órgãos, já que os corpos humanos seguem em franca transformação e essas mudanças preocupam as autoridades.


“É extraordinária a sensação de quando partes do seu corpo são tocadas pela primeira vez. Estou pensando nas sensações do sexo e da cirurgia.” Este aforismo de Jenny Holzer abre o livro biográfico Cronenberg on Cronenberg, publicado pela primeira vez no início dos anos 1990. A frase dialogava com a obra do cineasta naquela época e segue dialogando agora, décadas mais tarde. Afinal, ainda que tenha se enveredado por outros gêneros, estes temas sempre foram predominantes em sua obra, como se ele fizesse sempre variações de um mesmo mote, e Crimes of the Future é uma bela amálgama de muitos deles. Vemos aqui um Cronenberg auto referente e reflexivo ao questionar a legitimidade da arte que se baseia em expor o que há de abjeto dentro de nós. Claro que faz isso de maneira metafórica, mas também literal, ainda mais se lembrarmos que há poucos meses o cineasta se recusou a entregar para o laudo médico as pedras que haviam sido removidas de seus rins e as fotografou, transformando em NFT com o título “Pedra nos rins e beleza interior”. Além de revelar uma verve marqueteira do diretor, que lançou a novidade pouco antes da estreia de Crimes of the Future em Cannes, reforça um lado bem humorado que está em evidência também dentro do filme, através de um olhar debochado para o conservadorismo e a insignificância de certas repartições públicas.


Apoiado pela música de Howard Shore, particularmente afável neste filme, Cronenberg faz uma análise sensível dos tempos em que vivemos ao representar a busca desesperada pelo toque, pelo prazer, pela dor e por outras sensações que fazem de nós seres humanos, nem que seja por meio da comoção háptica proporcionada pela cirurgia. Acima de tudo, Crimes of the Future transparece um ar nostálgico, o reconhecimento melancólico de que, com as transformações tecnológicas, inevitavelmente o mundo como conhecemos ficará para trás: nossos corpos, nossas relações, nossos desejos, tudo isso será adaptado para acompanhar essas mudanças em uma simbiose entre nós, seres biológicos, e os materiais sintéticos que nós mesmos criamos. Não havendo mais onde despejar nossos dejetos artificiais, nós devoraremos e nos tornaremos esses dejetos. E, distantes da nossa humanidade em um futuro em que perdemos a capacidade até mesmo de sentir dor, resta uma busca incessante por… sentir. O filme exala uma voluptuosidade típica do cinema cronenberguiano, reiterada por um desenho de produção sensual e por um elenco repleto de magnetismo. Não há dúvidas de que Cronenberg é um artista obcecado e que sorte a nossa de poder acompanhar de camarote o amadurecimento de suas obsessões a cada novo título em sua filmografia.