• Rodrigo Passolargo

Ceará no 33º Curta Kinofórum

Texto por Rodrigo Passolargo

Em quantidade tímida, mas não menos importante, três foram os representantes do Ceará no 33º Curta Kinoforum: Festival Internacional de Curtas de São Paulo, que aconteceu de 18 a 28 de agosto de forma presencial e online através das plataformas Itaú Cultural Play e Sesc Digital.


Na Mostra Brasil, a diretora Georgina Castro apresentou “Hospital de Brinquedos”, onde a garota Bia vive a realidade através dos atos lúdicos da avó Ana Maria com sua boneca caucasiana. A criança lida com diversos distanciamentos, desde a ausência da mãe até os reflexos da indústria reprodutora e ditadora de padrões socioculturais do Brasil. Dentro de sua quietude inocente, Bia tenta uma contraposição também lúdica às fantasias que os padrões estabelecem e vendem. Mesmo neta e avó sombras uma da outra, é a figura do brinquedo que projeta uma enorme penumbra sobre suas existências. O desenvolvimento remanso na narrativa seja justificado para exemplificar a força silenciosa - e poderosa - que é essa obstrução cultural. Essa que também permite a contestação da situação pelo espectador sobre como as raízes do sistema eurocêntrico causam um desconhecimento por gerações sobre o povo brasileiro. A estruturação de racismos na sociedade através do lúdico ato de observar os cuidados com uma boneca.


Continuando na Mostra, Liv Costa e Sunny Maia exibiram "Na Estrada Sem Fim Há Lampejos de Esplendor”. Filmado em Jaguaretama/CE, a noite calma abriga diálogos sobre encontros e despedidas, manuseando seus personagens dos repousos e colocando-os a contemplarem as reflexões sobre lugares e pertencimentos.

A ânsia por chegar em algum lugar obstrui por vezes a observação de sentimentos no caminho. Enquanto alguns partem para voltar para si, outros retornam para se perder. Pode parecer contrastante, mas o filme sensoriza por similaridade através das estradas, seus elos, suas infinitudes. Nisso reside o esplendor: em seus lampejos.


Já na Mostra Infanto-Juvenil, vimos “Dinorá”. Karateca mirim que inicia sua reflexão sobre o mundo através de um entrave diante do nome da rua onde reside. Tais elucidações partiriam da descoberta da história nominal de Padre Mororó, Maria Tomásia ou Brigadeiro Vilela. Ou nos encontros de Antônio Sales com o Senador Virgílio Távora. Ou da diferença entre um Frei e um Padre além deles serem divididos pelo Bady Miguel. Quem sabe aconteceria se Dinorá morasse em uma dessas ruas.

A inocência de Dinorá em busca de significar a rua 749 como a das colegas do karatê desvenda alguns elos do corpo social. Se por um lado o filme não oportuniza arranhar mais explicitamente o contexto histórico apresentado acima, a outra face da moeda - supondo a intenção - é o próprio significado implícito de tantas ruas que não recebem os Santos Dummont e Leonardos Mota em suas identificações. Diante disso, Dinorá vislumbra que o senso de sua comunidade não diluiu.


Nossos representantes cearenses conversam sobre as vontades de seus personagens pertencerem a lugares e a si. Buscando compreender a força que desloca suas vidas ao ponto de questionarem se são partes dos recintos que convivem. Tal abalo sísmico social faz sentir o dispersamento de si não como forma de integração ou amplitude, mas de perda e diluição. A reflexão como resistência são os primeiros passos dados pelas narrativas apresentadas.


Entre bonecas, ruas e estradas, são filmes que atentam como o Ceará precisa constantemente ser revisto. Como um Estado parte do mundo, parte de cada um e parte de si.

 

Rodrigo Passolargo é roteirista, escritor, produtor cultural cearense e crítico de cinema. Formado em Economia e graduando em História, com pesquisa voltada ao regional nordestino, cultura popular e armorial.