• Arthur Gadelha

Carro Rei (2021): fábula cômica de um Brasil agressivo

Exibido no 49º Festival de Gramado, novo filme de Renata Pinheiro é um assombro tão óbvio quanto brilhantemente surtado


Quando as limusines se dizem cansadas no desfecho de Holy Motors (2012), muita gente ficou assustada, mesmo que Leos Carax tivesse preparado um longo terreno onde a lógica individual não era um elemento realmente guia. Mesmo entregue ao caos, esse drama-horror-musical encontra uma mensagem bem objetiva sobre a experiência do cinema como uma entidade mais visceral e urgente que o mundo meramente real, a metáfora levada ao extremo. Essa memória volta imediatamente com as primeira palavras maliciosas ditas pelo antigo Fiat Uno na voz de Tavinho Teixeira, a comunicação escrachada entre um carro e uma criança, ser humano, numa relação alimentada como devoção: Uno da Silva, ou simplesmente Ninho (de Uninho), nasceu dentro de um carro e, na fantasia de um ser que gera outro, é como também ser filho dele. Então está claro: os carros falam, e Ninho é o único que consegue escutá-los.


Ao proibir a circulação de carros antigos, uma nova lei implementada expressa essa visão elitista sobre a forma como a cidade se movimenta, o que é um gancho charmoso para o que vem a seguir: Uno precisa proteger o carro que lhe concebeu e lhe protegeu da morte algumas vezes. Nas mãos de Renata Pinheiro, esse gesto contra à opressão se transforma bruscamente na revolução descontrolada sobre um poder que, no fim das contas, é totalmente humano já que os carros são apresentados como máquinas sem qualquer autonomia.


Um dos méritos mais saborosos de Carro Rei, porém, é também o seu maior empecilho: a overdose de metáforas e discursos que tentam se significar sob a mesma roupagem e no mesmo ritmo. Diante das tantas coisas que busca "dizer", o coração dessa história é atropelado à medida em que avançam todos os pensamentos que partem da ascensão fascista no Brasil dos últimos anos à subversão da máquina inimiga. E de todas essas histórias, a mais intrigante é a que compartilha de uma relação muito mais antiga com o Brasil: o carro como parte de nós.


Com a produção interna impulsionada a partir dos anos 1950 pelo governo alarmante de Juscelino Kubitschek, o carro se tornou uma peça-chave para dimensionar o poder econômico da sociedade. Se hoje os veículos mais "baratos" são minúsculos e partem dos R$40 mil, é frustrante lembrar que um dia já convivemos com o conceito de "carro popular", e o Fiat Uno foi o primeiro a se beneficiar dessa realidade onde seguiu invicto por anos até ser descontinuado. No Brasil de Carro Rei, esse mesmo Uno já é velho o suficiente para ser impedido de existir, sintoma que o roteiro atribui a negligência econômica e ao totalitarismo tão hipnotizante que o manifesto perde sentido e vira apenas uma "demonstração de força". Por isso são tão importantes, narrativa e graficamente, as cenas onde a fábula assusta, como a transa à margem da cidade, a mutação súbita dos seres humanos em movimentos doutrinados e a onipresença de um poder aparentemente imbatível.


"Será que estamos nos transformando em máquinas", pergunta Luciano Pedro Jr. numa performance meio truncada que vai se justificando aos poucos. Nesse contexto, a presença de Matheus Nachtergaele é arrebatadora na incorporação de um homem-macaco que defende o homem-máquina ao ponto de não ser nem um nem outro, mas apenas a contradição de um país cuja identidade se desmorona entre o progresso e o conservadorismo. Quase como o mesmo Denis Lavant de Holy Motors (comparação inevitável), o Zé Macaco de Matheus é o centro de tudo o que se pretende discutir aqui.


Apesar de algumas atuações engessadas e da obviedade remartelada à cada passo, Renata domina a alma dessa história com uma brutalidade ainda mais explosiva no que vemos e ouvimos. A fotografia de Fernando Lockett e a música de DJ Dolores elaboram uma atmosfera tão impressionante, que o caos se anuncia em sobreposição ao que está por debaixo, deixando a constante sensação de que o poder desses carros está mesmo "acima de todos", que o futuro humano é uma missão impossível.


Nesse Brasil de 2021, a sensação é de dormência e impunidade, cenário que tanto glorifica a existência de um filme como esse, quanto o coloca num grau de cansaço e repetição. Mas em suma, o que realmente provoca Carro Rei é a experiência de um filme que, para além de todas as articulações com o mundo real, nunca foi feito dessa forma como uma fábula igualmente cômica e feroz.


Publicado pelo Autor no Ensaio Crítico