• Arthur Gadelha

Céu de Agosto (2020): sem rota de fuga

Publicado pelo Autor no site Ensaio Crítico

Esse gesto milenar de "olhar pro céu" e esperar por respostas conduz tanto nossa compreensão de solitários "presos à terra", que a intenção de fuga avançou naturalmente sobre às fantasias de viagens interestelares e abduções alienígenas na dualidade de um universo infinito e a tediosa rotina de uma vida aqui do lado de dentro. "Vem me levar para um lugar longe daqui. Livre para navegar no espaço sideral porque sei que sou semelhante de você, diferente de você, passageiro de você, à espera de você", cantou Arnaldo Antunes ao que poderia ser o pedido de filmes como Inabitável (2020) e Sobre Nossas Cabeças (2020), para citar dois bem recentes. Em Céu de Agosto, ficção de Jasmin Tenucci, o gesto permanece como um elemento intimidante, mas sem qualquer outra dimensão de significado: olhar pro céu é nada mais do que procurar respostas.


Vivida por Badu Morais na construção de uma vulnerabilidade bem disfarçada, Lúcia é uma enfermeira grávida que começa a testemunhar algumas mortes e passa a se preocupar com o que está crescendo do seu lado de fora. "O bebê tá quieto hoje, ele tá dormindo?", pergunta sua avó para uma criança que ainda está na barriga e completamente alheia às queimadas na Amazônia. Nesse intenção de intensificar o barulho do mundo, o roteiro de Tenucci e Saim Sadiq é mínimo e insiste em construções vagas para "provar" seu ponto - apesar disso, a sutileza na performance de Badu, oscilando entre a indiferença e o temor, é cativante o suficiente para que o filme não se dilua num discurso fácil.


Olhando para essa São Paulo silenciosamente caótica, a fotografia de Bruno Tiezzi se une a música de Maria Beraldo pra construir esse suspense na expectativa de que uma resposta pode realmente cair do céu a qualquer momento, condição que pressiona Lúcia a buscar lógica onde ela nunca existiu para além da fantasia. Traçar a igreja como uma rota de fuga é o que eleva, tão perto do final, o desespero velado em torno da crença de uma terra tão infinita quanto o espaço lá fora - pois se é logo esse o espaço seguro, então o que restou aqui fora? Mesmo mantendo a esperança do gesto de "olhar pro céu", Jasmin supõe que para além das respostas para os conflitos sociais e naturais ativos no planeta, as destruições que estão em curso são das perguntas.