A Voz de Deus: e a escuta do cinema
- Daniel Araújo

- há 5 dias
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A Voz de Deus (2025) é verdadeiramente um filme de montagem. Tudo o que o Miguel Antunes Ramos toma como base ou alicerce para a construção da narrativa como um todo parte do material captado e na forma como essas peças cronológicas vão se articulando, reorganizando e se sobrepondo, muitas vezes em função, não da "mensagem" que o filme queira organizar, passar.
Voltarei a isso logo mais, mas acho importante citar esse componente técnico uma vez que ele dialoga demais com a proposta de uma obra que toma o dispositivo da observação para esquadrinhar dois mundos dentro de um mesmo microcosmo.
Olhar sem julgar certamente é um dos maiores desafios para o exercício do documentário contemporâneo, sobretudo quando a(o) cineasta lida com realidades imersas em muitas contradições e pontos de leitura múltiplos, como é caso da abordagem junto ao fenômeno do protestantismo contemporâneo brasileiro.
Penso que esse seja, na verdade, a maior força do filme justamente pelo fato do Miguel não ceder ao ímpeto de tentar corrigir ou "consertar" os personagens ali captados ou buscar "esteriotipar" essas figuras numa aberta tentativa de "se colocar" um ponto de vista sobre o que seria a abordagem correta ou oficial para determinado grupo, neste caso, pessoas com posicionamento mais progressista ou alinhado com um movimento de esquerda em temos políticos.
Esse é um ponto crucial em relação ao filme porque é aqui que a maior confusão em relação às janelas de leitura e interpretação tem se dado, a meu ver.
Os críticos e analistas que defendem uma visão de reparo e manutenção sobre o estado das comunidades evangélicas ao redor do Brasil parecem não entender que esse discurso de afastamento é justamente o mesmo erro que os próprios movimentos políticos e sociais de esquerda do País cometeram ao longo dos últimos 20 anos ao se afastarem desses grupos ao invés de tentar uma aproximação possível a fim de buscar modos de conexão social.
Um equívoco que, diga-se, permitiu, por exemplo, a captura dessas pessoas pela ala política mais reacionária no nosso contexto atual. Nisso, o projeto do Miguel em muito se assemelha àquilo o que Adirley Queirós e Joana Pimenta parecem ter pensado para Mato Seco em Chamas (2022), sobretudo quando ele vai tentar, a partir desse estado mais observacional da câmera, tentar entender e estabelecer um diálogo mínimo com as pessoas que vivenciam esse fenômeno da fé evangélica brasileira e as intersecções com o posicionamento político nacional conservador.

E por fazer isso, a exemplo do que Queirós trouxe no seu filme, Miguel rejeita um caminho mais cômodo e simplista até onde o cinema funciona mais como ferramenta de reforço de ponto de vista do que de problematização das complexas estruturas sociais da nação. Posição que um cinema de uma diretora como a Petra Costa se alinha mais.
E sinceramente, para mim, esse é um lugar muito cômodo para um cineasta. Por isso que o trabalho do Ramos soa muito mais maduro e revelador de uma série de questões que estão numa zona cinza que não se deixa capturar pela obviedade. A câmera deixa os personagens registrados livres para serem quem são.
E nessa dinâmica, ainda que a performatividade da vida aponte determinados traços de quem se pensa bom demais no seu fazer no mundo, há sempre um instante na cronologia do filme que o dispositivo captura algo que o depoente deixa escapar na falha do ato performativo.
A sequência incrível do garoto Ota confrontando a própria mãe e tentando a todo custo suplantar a fala dela diante da câmera é muito revelador disso e fala da potência do filme na sua intenção de dar visibilidade a essas contradições. Esse é o papel do cinema, entre tantos outros. Falar pelas linhas da sutileza. E isso poucos analistas dos nossos dias parecem entender, infelizmente.

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