• Raiane Ferreira

A Professora do Jardim de Infância (2020): a extinção da sensibilidade

Texto publicado por Raiane Ferreira no site Uma Mulher Com Uma Câmera

A individualidade dos seres humanos é uma característica marcante. Cada indivíduo possui suas personalidades e características próprias, sendo esta uma das principais marcas da nossa singularidade. Nisso, a sensibilidade se torna um atributo dos humanos que se origina da força de criação. É através dela que surgem as composições, as histórias, a arte e a poesia. Porém, na sociedade contemporânea, as formas sensíveis de viver não são mais comuns. E é pensando nestas questões que iremos falar do filme A professora do jardim de infância (2018).


Dirigido por Sara Colangelo, ‘’A professora do jardim de infância’’ é um remake do filme israelense de mesmo nome, lançado em 2014. Nele, acompanhamos Lisa Spinelli (Maggie Gyllenhaal), uma mulher de 40 e poucos anos, casada, com dois filhos, que trabalha educando crianças. Exausta de sua vida e de tudo que lhe cerca, ela se refugia através das artes, principalmente por meio da poesia.


A mulher tenta se dedicar à escrita de textos poéticos em aulas semanais, mas não tem talento para a atividade. Certo dia ela percebe que um de seus pequenos alunos consegue recitar lindos textos líricos de forma fácil e fluida. Assim, Lisa deposita todas suas expectativas na criança, desejando ser para ele uma tutora, a fim de ajudar no desenvolvimento deste talento e acompanhar seu desempenho. Porém, esta motivação ultrapassa alguns limites, quando a personagem acaba ultrapassando uma linha tênue entre o desejo e a obsessão.


Em um primeiro momento, o espectador pode até julgar a figura da professora, questionar suas escolhas, sua forma de agir para com o garotinho. Principalmente por podemos considerar o interesse dessa mulher no garoto como uma forma de se aproveitar do menino em prol de seus objetivos particulares. Porém, ao longo da narrativa, percebemos que há algo mais profundo nas atitudes desta professora, algo fora de uma lógica sistêmica da frágil estrutura social em que nos encontramos.


A diretora opta por conduzir o público pelo olhar da protagonista através de uma estética naturalista. A ideia parece ser a de sempre acompanhá-la em seus movimentos na maior parte do tempo. É aí que nos aproximamos dela, de seus desejos, de sua tristeza e solidão. Por mais que algumas decisões pareçam ilógicas, conseguimos compreender o que a move. Lisa possui frustrações pessoais que atravessam o seu fazer como educadora, uma vez que ela parece estar cansada de viver em um mundo tão insensível e materialista. A começar pelos seus dois filhos adolescentes que fazem parte de uma juventude ligada a valores superficiais.


Na contramão de tudo isso, temos as figuras da própria Lisa e o menino Jimmy, seres delicados e emocionais. Se não fosse a visão diferenciada da educadora, a aptidão do garoto passaria despercebida por aqueles que o acompanham. Grande parte do tempo o menino tem a companhia da babá, que não entende nada de poesia, e seu pai, dono de uma boate, e um sujeito que desvaloriza qualquer tipo de prática ligada a um fazer artístico. É percebendo a falta de atenção por parte desse cuidadores às especificidades ao redordaquela criança que Lisa faz de tudo para proteger o garoto de todo um sistema imersoem grandes complexidades. De um ambiente que quer condicionar os indivíduos a construírem suas vidas pautadas no consumo, na acumulação de bens e no dinheiro, considerando qualquer prática lírica, afetiva e sentimental, inútil. Diante de todos estes pontos, "A professora do jardim de infância” abre espaço para refletirmos sobre o artista no mundo contemporâneo. Abrindo, assim, alguns questionamentos: como ser artista em um mundo tão cruel com os sensíveis? Será que o mundo em que vivemos está preparado para essas pessoas? Talvez parte desses questionamentos nos levem ao encontro de determinadas interrogações. Uma delas fala sobre as visíveis mudanças nos paradigmas daquilo que entendemos como uma prática artística, seja a partir da nossa experiência com a música, com os livros, os filmes e as imagens que consumimos nos dias atuais. Focando nisso, torna-se mais palatável a posição de Lisa na estória. Talvez ela tenha sido uma destas pessoas que precisou aprender a viver em um mundo rigoroso e raso. Uma temporalidade que não considera a apreciação das coisas mais simples e belas formas de conexão com aquilo o que pode haver de mais profundo no nosso ser: a poesia, por exemplo. E de fato existem certas coisas que estão além de nossas forças e isso é algo que Lisaaprendeu em sua jornada. Então não podemos julgá-la e sim compreender sua posiçãocomo professora, afinal, se você estivesse no lugar dela, o que faria?

 

Raiane Ferreira é realizadora, montadora, critica e pesquisadora. É a criadora do canal Uma Mulher Com Uma Câmera, que busca refletir sobre as mulheres no cinema, tanto frente à câmera quanto atrás dela.