• Arthur Gadelha

A Praia do Fim do Mundo (2021): mãe e filha estremecem fim do 31º Cine Ceará

Publicado pelo Autor no site Ensaio Crítico

No cerimonial da última noite de exibições, a apresentadora Grazy Costa lembrou que o cearense Petrus Cariry venceu o Troféu Mucuripe de Melhor Filme há 10 anos no Cine Ceará com Mãe e Filha (2011), trama angustiante de uma mulher que leva seu bebê natimorto para receber a benção da avó antes de enterrá-lo - ali, aprisionadas no limbo entre passado e delírio, as duas entram num atrito de desespero que piora uma tragédia já anunciada no seu limite. Logo mais na sessão de ontem, quando Marcélia Cartaxo e Fátima Macedo surgem em conflito num fim do mundo também castigado pela própria natureza, a conexão entre essas duas histórias sobrevive para muito além do trocadilho evocado no título.


Na trama cíclica, Helena se nega a abandonar sua casa, mesmo que ela esteja sendo liquidada aos poucos pela ressaca agressiva do mar, enquanto sua filha Alice tenta todos os argumentos para convencê-la a mudar de ideia. Mas como já estamos cientes, ninguém "muda de ideia" nos filmes do Petrus, fazendo com que seus personagens sejam alimentados por dogmas indiscutíveis de honra ou temor. Vivida por uma Cartaxo muito silenciosa - e por isso quase irreconhecível se pensamos na sua recente Pacarrete -, Helena é uma senhora que já se deu por vencida pela expectativa de um destino incerto.


Nessa relação íntima e misteriosa com o mar que lhe ameaça, é certo que muitas analogias serão feitas a'O Farol (2020), de Robert Eggers, especialmente pela inesperada simbologia dos animais marinhos e pela relação de duas pessoas ilhadas diante do abismo, mas o que Petrus e time fazem aqui é muito mais sobre pessoas como partes do mundo, e isso Eggers poderia não ter a capacidade de equacionar muito bem diante do seu grafismo religioso.


Apaixonado por paisagens como extensões sensitivas de seus personagens, o diretor cearense faz aqui o seu trabalho mais recheado de detalhes, principalmente pela “limitação” do quadro ao preto&branco e pela janela de proporção curta, disfarçando de realidade uma fábula muito bem escondida na meditação de um tempo que passa noutro ritmo. Mesmo abrindo o jogo com aparições e curtas revelações de objetos, sons e alegorias, a dúvida nunca se esgota, e o rosto de Helena, que poderia nos dar dicas por debaixo de expressões tão exaustas, só vai deixando seu espectador mais confuso sobre quais são seus planos na insistência para ver o mundo acabar dali mesmo.


Nessa medida, A Praia do Fim do Mundo vai se tornando um filme sobre fantasmas sem precisar anunciá-los, pois a catarse está na rota contrária, do espírito ao corpo, gesto sublime que chega de supetão como o estalar de dedos que encerra uma longa sessão de hipnose. Para além da imagem, a trilha sonora de João Victor Barroso alinhada à mixagem de Érico Paiva também são responsáveis diretas pela materialidade dessa opressão invisível que está além das ondas.


Ao longo do festival, comentei com algumas pessoas que deveria haver uma razão estratégica para esse filme ser a última exibição da mostra ibero-americana de longas, já suspeitando dos encerramentos assustadores de todos os seus filmes anteriores – e não poderia ser diferente. Encerrar o 31º Cine Ceará com a mutação a olho nu de A Praia do Fim do Mundo é como cair da cama no meio do sono e, sem outra escolha, acordar antes de chegar ao chão.

 
Arthur Gadelha é presidente da Associação Cearense de Críticos de Cinema - Aceccine, e diretor de criação audiovisual no Jornal O Povo