• Rodrigo Passolargo

"A Filha do Palhaço" e "Vicenta B": Quem Me Chamou Não Me Conhece"

Texto por Rodrigo Passolargo

32º Cine Ceará larga com dois longas da Mostra Competitiva que falam muito sobre os efeitos da falta que deixamos no outro e em si. Filme de abertura do festival, estreia o esperado cearense A Filha do Palhaço, que conta a história da menina Joana que vai passar alguns dias na casa do distante pai Renato, que se considera um ex-ator e trabalha como humorista nas noites fortalezenses.


Na noite seguinte do festival, é a vez do vencedor do Prêmio Egeda Platino Industria (WIP Latam) no Festival de San Sebastián 2021. Vicenta B. narra o drama de Vicenta Bravo, uma mulher cubana que ganha a vida com seu dom de ler cartas e encara a partida de seu filho Carlito para outro país.


O primeiro filme é dirigido pelo cearense Pedro Diógenes (Inferninho, Pajeú), que demonstra uma maturidade na direção apostando nas declarações passionais de seus personagens numa coesa interação com os elementos de uma atual Fortaleza imersa no noventismo. A Joana (vivida pela atriz Lis Sutter) é essencial para que momentos de exposição se tornem emoção. A imaturidade de Joana é a fagulha de esperança para um imprudente pai.


O segundo filme é assinado pelo cubano Carlos Lechuga (Melaza, Santa & Andrés), que através da atuação gloriosa de Linnett Hernandez Valdes eleva qualquer recorte. Se Lechuga encara o silêncio do corpo de Vicenta como um reflexo do grito de sua alma, as imagens oníricas do trabalho fotográfico de Denise Guerra descola o incomum para o lugar comum. O sacro é real e conversam diante de uma mãe madura que precisa suprir as decorrências da omissão.


É nítida a relação da maternidade e paternidade apresentadas, mas diferentes são as vias que a ausência toma. Enquanto o humorista Renato toma a decisão de abandonar a filha no início do seu nascimento para viver um amor bloqueado, Vicenta não tem escolha a não ser presenciar a viagem do filho que busca uma nova vida. Vicenta entra em contato com a ancestralidade para entender suas decisões e sentimentos num casarão repleto de símbolos de seus ofícios e crenças. Assim como o palhaço Renato, com seu quarto desorganizado de adereços e maquiagens, mas num pequeno apartamento na Praia do Futuro lidando com o ressignificado do presente.


Ambos depositam em suas profissões o escape do que os aprisionam na tentativa de fugir dos efeitos da ausência. Renato prossegue - agora na presença da filha - travestida de Silvanelly com o objetivo de arrancar sorrisos para aliviar o passado. Vicenta, que carrega consequências coloniais de uma sociedade preconceituosa que abreviava os nomes das santeiras cubanas, longe do filho já não consegue exercer seus ofícios para arrancar o futuro.


Renato escolhe por vezes esconder-se atrás de Silvanelly, referenciando a história do humor cearense na figura de Raimundinha. Vicenta não decide ocultar seu sobrenome e nem a si, restando escutar as vozes de suas antepassadas iyanifás. Vicenta não consegue vislumbrar o futuro de Carlito enquanto Renato sabe que não pode modificar o passado de Joana. Se o personagem de Jesuíta Barbosa sussurra que “um ator nunca deixa de ser ator”, o sonho de Renato é a responsabilidade de Vicenta, pois uma vez Vidente, sempre Vidente. Se o ditado cubano falado pelo personagem Tito diz que “lamparina na rua, escuridão em casa”, então Vidente e Palhaço os fizeram: um porque assoprou a própria chama com o bafo da culpa e a outra porque deixou apagar pelo hálito do arrependimento.


Na construção da redenção, os diretores Pedro Diógenes e Carlos Lechuga apostam no mesmo conceito e cruzam seus caminhos. O modo de lidar com as ausências segue o rumo da revisitação dos signos perdidos. O resgate das origens das suas personagens pode indicar a esperança de conhecer quem elas as chamam. Expansivo como A Filha do Palhaço ou Introspectivo como Vicenta B., é aqui que ambos encostam na máxima do historiador Thomas Fuller, que escreve:


“A ausência aguça o amor. A presença o fortalece.”

 

Rodrigo Passolargo é roteirista, escritor, produtor cultural cearense e crítico de cinema. Formado em Economia e graduando em História, com pesquisa voltada ao regional nordestino, cultura popular e armorial.