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  • Milo Costa

A Baleia (2022): Um desabafo sincero

Crítica por Milo Costa publicada originalmente no site Só Mais Uma Coisa


Eu me senti na obrigação de assistir A Baleia (The Whale, 2022) no momento em que soube da existência do projeto, em meados de 2022. Naquele momento, eu sabia apenas o título e nome do diretor, e, como grande fã de Darren Aronofsky, isso foi suficiente pra atiçar a minha curiosidade. Logo de cara, associei o nome do filme ao livro Moby Dick, uma obra emblemática que trabalha um tema muito recorrente na filmografia do cineasta americano: a obsessão. “Tem tudo a ver mesmo”, pensei. E aguardei, a curiosidade transformando-se em expectativa.


Só quando Brendan Fraser foi ovacionado por seis minutos no 79ª Festival de Veneza, que eu fui atrás de saber mais sobre o filme. Até aqui, eu não sabia que se tratava da história de uma pessoa obesa, adaptação de uma peça de mesmo nome. Saber disso mudou completamente o que eu estava sentindo com relação ao filme, a expectativa transformando-se em angústia. Por um lado, fiquei feliz que Brendan estivesse sendo elogiado, nutro um carinho genuíno pelo ator e por sua trajetória, o sucesso do longa poderia significar um retorno aos holofotes e ele merecia essa segunda chance. Por outro, quanto mais detalhes a respeito da produção eu sabia, maior ficava o meu desânimo e mais na obrigação de assistir eu me sentia.


Acontece que, além de ser da área de cinema e escrever sobre cinema, eu também faço parte do movimento body positive. Eu sou uma pessoa gorda maior, eu leio e falo sobre gordofobia, corpo livre e representatividade no meu dia-a-dia e nas minhas redes sociais. Então, eu acabo sendo uma interseção desses dois assuntos e o tal do famigerado lugar de fala começou a pesar pro meu lado. Não que apenas uma pessoa como eu pudesse opinar sobre o filme, longe disso, até porque a obra de Aronofsky até aqui sempre se beneficiou de discussões posteriores, mas porque sinto que é de extrema importância que pessoas sensíveis aos temas abordados tentem nortear essas discussões que possam surgir a partir do filme. E é isso que vou tentar fazer neste texto.


No longa, Charlie (Fraser) é um professor de inglês recluso que vive com obesidade severa e que tenta se reconectar com sua distante filha adolescente para uma última chance de redenção. Aronofsky define “A Baleia” como um “exercício de empatia”. Essa contradição é a perfeita síntese desse filme, porque convenhamos que não há nada de empático em intitular uma história sobre uma pessoa gorda de “a baleia”, ainda que o mesmo esteja contextualizado dentro da narrativa, no fim das contas, não deixa de ser de mau gosto. Então, de todo modo, é muito triste pensar que mesmo com todo o esforço que a produção disse ter durante os mais de dez anos em que o projeto foi desenvolvido, com toda a intenção de ser uma espécie de retratação de todo o desserviço que Hollywood promoveu e promove acerca de pessoas gordas, esse é o melhor que essa indústria consegue fazer? Uma obra que, apesar de alegar se interessar pela vida de Charlie para além da sua aparência, escancara e desumaniza essa aparência a todo momento pelo texto e pela câmera parada e impassível da direção que, embora não seja necessariamente sensacionalista, não deixa de ser dura. A bem da verdade que, ao adaptar o texto teatral, o filme tomou um ar bem mais sóbrio do que a peça, que você pode conferir algumas cenas no Youtube, caso tenha interesse. Mas, ainda assim, quase toda a humanidade do personagem vem da entrega do elenco, especialmente da atuação tocante de Fraser.


A direção é extremamente e propositalmente desconfortável, claustrofóbica. A partir do momento em que a morte de Charlie é quase que profetizada, o filme se estrutura em menos de uma semana, nunca saindo do mesmo local, que é o apartamento de Charlie, e todas as coisas vão se tornando cada vez mais sufocantes, as situações, as entradas bem marcadas dos outros personagens que reforçam uma rotina que se repete de maneira melancolicamente desesperada, funcionando nessa lógica de algo que está sempre à beira de colapsar, de explodir. É um melodrama bem feito, com atuações belíssimas sim, mas que emociona o público à custo da exploração de um corpo que reforça todos os estereótipos e estigmas. Foi difícil simplesmente me deixar levar pela história porque a tragédia maior se encontrava além daquele universo ficcional, era o fato de que esse era o filme que tinha consciência do histórico de representações de pessoas gordas no cinema e que queria fazer algo diferente, algo mais humano, e que acabou caindo nas mesmas armadilhas. O que me faz pensar: será que a única narrativa possível para nós além de sermos motivo de piadas, é sermos dignos de pena?


Além de personagens perdidos dentro da própria obsessão, outro tema bastante recorrente nos trabalhos de Aronofsky é a religião, um assunto que permeia praticamente todos os filmes, em menor ou maior escala. Em A Baleia, não foi diferente. Aqui, a religião entra na figura de um jovem missionário que acredita que seu propósito em vida é salvar Charlie, que por sua vez, rejeita qualquer ideia de espiritualidade, mesmo porque essa mesma religião foi o que matou Allan, o amor da sua vida. Esse luto é, inclusive, o estopim para a situação em que Charlie se encontra, um dos poucos acertos do filme a respeito do desenvolvimento do personagem. As visitas do missionário, a homossexualidade de Charlie e a relação com sua filha, somados à uma interação não muito natural entre os personagens e aquele tempo e espaço são as coisas que realmente interessam aqui, mas que perdem espaço para os momentos em que Charlie come de maneira animalesca.


Se for pra seguir o conselho dado pelo próprio Charlie durante uma de suas aulas e escrever alguma coisa com sinceridade, eu diria que a verdade é que a nossa sociedade nos enxerga como o protagonista de A Baleia, uma bomba-relógio, e, mais do que isso, gostaria que todos nós agíssemos como ele; Charlie não só se culpabiliza como pede desculpas atrás de desculpas por ser quem é e o texto não se preocupa em trabalhar isso. Ele não sai de casa, ele não reivindica para si um outro lugar que não seja o do repugnante e do desprezível. Ele não quer ir ao hospital, ele não acha que vale a pena cuidar de si mesmo, ele não constrange ou incomoda os outros com a sua presença, é a passividade de alguém que não se respeita, é doloroso de ver. Aliás, a gordofobia estrutural opera de modo que isso acabe se concretizando com o tempo, adoecendo a pessoa até que ela tenha medo de não caber nos lugares quando sair na rua, até que ela passe a se negligenciar. Eu te pergunto, será que se ele fosse um personagem um pouquinho menos dócil e tivesse a ousadia de se sentir um ser humano válido, ele ainda seria digno da sua empatia? Ou te provocaria indignação? Porque na vida real, quando uma pessoa gorda se afasta mesmo que um pouco dessa imagem de fracasso ambulante e resolve se impor, ela é humilhada e rechaçada.


A redação sobre Moby Dick que é revisitada várias vezes durante o longa, como uma reza, tem uma camada óbvia de metalinguagem, mas fazê-lo não lhe engrandece, pelo contrário, evidencia sua falta de tato. Em suma, esse filme me lembrou quão importante é a discussão em torno da gordofobia, principalmente da gordofobia estrutural e médica, e quanto ainda nos falta para progredir, temos muito trabalho a fazer para deixar de ser um assunto nichado, ainda nos falta muito chão para percorrer e adentrar outras bolhas e eu espero sinceramente que a história de Charlie possa servir, no mínimo, para começar conversas sobre isso. Com certeza ainda não chegamos tão longe quanto deveríamos, mas eu preciso acreditar que é um lugar possível de alcançar.

 

Milo Costa é roteirista e podcaster bacharel em Cinema e Audiovisual. Colabora com o site de cultura Só Mais Uma Coisa.


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