A Vapor (2020): Corpo, Desejo e Fuga


O que fez Sob a Pele, aventura sufocante de Jonathan Glazer, figurar em diversas listas de Melhores Filmes da Década foi uma discussão peculiar e honestamente única sobre o corpo humano e seu significado social que desfigura o destino biológico. Lá em 2013, Glazer se debruça sobre a ficção científica para trazer à luz uma alienígena que, sob uma pele humana, usa o comportamento sexual como ferramenta de sobrevivência ao caçar corpos que se embriagam de sua imagem. A caça está posta à mesa. A caça, sem pudor, assusta.

Aqui, em A Vapor, curta-metragem de Sávio Fernandes, nem parece que a caça importa tanto até que ela se revele. A trama descritiva sobre um personagem estrangeiro numa sauna gay misteriosa até parece ser um transa entre o longa de Glazer e o curta Cinemão, de Mozart Freire, mas Sávio está mais interessado em esconder esse desejo do que expôr como narrativa - tanto que sua existência visual dura muito pouco em tela, mas o suficiente para assustar.

Tudo parece muito calmo enquanto seu protagonista está secretamente fugindo do prazer sob a máscara da tensão, mas o som constantemente corrosivo e a investigação do cenário naturalmente obscuro dessa sauna vão denunciando um clímax que certamente pode ser interpretado de forma explosiva, apesar dos ganchos enfadonhos que picotam, estendem e racionalizam demais essa história.

Nesse contexto, as performances de João Fontenele e Uirá dos Reis compõem personagens “antagônicos” entre o medo e ansiedade que determinam a importância de pressionar o mistério até revelar que, embora simples ou até óbvio da perspectiva textual, é realmente impressionante sonora e visualmente. Sávio usou esse truque no curta anterior Oração ao Cadáver Desconhecido, ao relacionar a descoberta de um corpo-alienígena com uma frágil sintonia entre pai e filho, subtexto que explode graficamente de forma semelhante no desfecho.

Mas a energia de A Vapor é diferente dos filmes citados aqui porque a tensão não está no segredo ou na intenção, mas na forma como seu protagonista tímido deixa de ser estrangeiro numa história que começa com humanos e termina com bichos, comparação que não parece ser sequer cogitável neste nosso contexto urbano - ou quem sabe esses quatro meses de isolamento social tenham ponderado esse conflito milenar que subjetivamente nos separa da crueldade natural da vida.

Filme assistido no 31º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo - - Curta Kinoforum

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