A Fome que Devora o Coração (2020): a jornada da heroína de múltiplos desejos

14/07/2020

Em uma rua deserta, Vânia caminha na noite de Fortaleza. Sozinha, ela segue serenamente na busca por quem quer que seja ela mesma. Mais que um filme de personagem, A Fome que Devora o Coração (2020) é também uma obra sobre busca. Sobre a procura por si mesmo, mas não a partir de um equivocado senso de autoengano. Nossa protagonista se conhece, na verdade. Sua jornada, de fato, é pela trilha do caminho desviante, incerto e sombrio, em alguma medida.


Escrito e dirigido por Raiane Ferreira (e composto por equipe formado apenas por mulheres), o curta parte de um desejo de dar voz a essa jornada do feminino. Desse corpo e dessa subjetividade que transita entre os espaços externos e internos da vida social de uma metrópole como Fortaleza. Essa modulação entre uma abordagem naturalista mas também fantástica colocam o filme em um lugar muito potente em que a obra audiovisual não encontra-se engessada nos limites que a abordagem do gênero pode ocasionalmente expor.


É interessante falar nessa proposição intergênero porque a estória inicia-se fortemente calcada nesse senso de representação da realidade e sequência a sequência se metamorfoseia para uma construção fantástico-realística. Por isso, pensar na ideia do sonho interessa aqui. Afinal, Vânia vive sua realidade cotidiana em perspectiva. 


Ela está trabalhadora, depois, dona de casa e vice e versa. À noite, ela sonha. E é no campo do onírico que um rompimento ocorre. Algo na esfera do seu inconsciente a chama. Ela inicialmente se assusta. Mas entende que esse chamado é algo que brota de dentro dela mesma. Nesse momento, ela se abraça e um novo movimento se inicia em sua vida. 


A exterioridade a chama e ela se permite esse movimento. Talvez por isso ela seja a heroína da sua própria jornada. Diferentemente do que Campbell propunha para seu herói de mil faces, nossa protagonista não recusa o chamado da aventura. Ela se lança mesmo. E no seio da cidade se permite perceber as coisas ao seu redor a partir daquilo o que seus olhos e mente veem. Um casal hétero se beija em via aberta, um casal homo se beija em uma praça da cidade. 


Pelos olhos de Vânia, não há cisão entre aquilo o que sua retina apreende e sua mente processa. Mas apesar dessa construção proposta, nunca conseguimos apreender o que essa mulher sente, de fato. Entendemos que ela está sentindo algo, mas isso dificilmente se materializa por meio de alguma verbalização ou movimentação expositiva que seja. E isso é algo ótimo. Considerando o olhar do espectador, são múltiplas a leitura daquilo que atravessa a personagem.


E assim como Michelangelo Antonioni (1912-2007) concebia figuras intransponíveis na sua cinematografia, Raiane também opera essa frutífera lógica na construção de um arquétipo que não está dado, perfeito. Essa jovem Fortalezense não precisa nos convencer a nada. Da sua boca, as palavras quase não surgem. Para entendermos o que ela quer nos dizer, temos de olhar além daquilo o que a tela imprime. Lembram de Monica Vitti em A Aventura (1960)? De modo semelhante, Vânia vaga por um oceano de perguntas sem respostas. E tudo bem não tê-las. 


A exemplo da musa italiana, ela só vai, meio sem rumo, indo aonde seu desejo a impulsiona. Mas diferente daquela mulher do clássico italiano, nossa heroína independe desse outro materializado na figura do homem enquanto uma espécie de “metade perdida da mulher”. Sua busca, ao contrário, passa a ser, de fato, por ela mesma. Por isso a mitologia funciona tão bem aqui. Afinal, que feminino é esse que intenta se perder para que, enfim, possa se achar? 


Talvez uma metáfora em contraponto político àquilo o que o imaginário da sociedade brasileira em 2020 propõe à “mulher para se casar”. Errante, essa feminilidade subjetiva aceita os riscos da realidade. Quando a violência à ataca, ela não resiste. Quando o abuso à aborda, ela o rebate. No limite daquilo o que a vida real a impõe, essa personagem busca se moldar à forma da situação que a todo custo tenta lhe tolher enquanto indivíduo e enquanto corpo dotado de subjetividade. 


Sozinha na noite da nossa cidade, ela caminha. Não sabe o que verdadeiramente vai encontrar e isso é o que a dota de força. Diante do espelho, ela se verá uma primeira e derradeira vez. Rainha de si, ela não teme mais a escuridão que a ronda e se deixa por ela ser abraçada. Coroada como senhora do seu destino, seus olhos marejam no reflexo da sua interioridade, agora, desvelada. Nossa protagonista passa a entender-se enquanto forma e conceito. Afinal, ser livre é, entre tantas coisas, ter a exata noção de tudo isso. 

 

Publicado pelo Autor no site Daniel Araújo

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