Sinal Fechado (2020), de Lucas Sá


Continuamos a falar de cinema maranhense. Mas, desta vez, vou fazê-lo, por uma forma meio provocativa, abordando um videoclipe, esse gênero audiovisual tão pouco compreendido, numa encruzilhada de difícil conciliação entre a vocação pela experimentação e pela não linearidade e os requisitos da indústria do entretenimento. Há alguns videoclipes que conseguem gerar uma potência de realização artística para além de sua função de mera promoção publicitária da obra musical.

"Sinal Fechado" – uma parceria entre dois artistas do nordeste brasileiro: o cineasta Lucas Sá e o músico Getúlio Abelha – é um desses casos. Getúlio nasceu em Teresina mas começou a ficar conhecido na cena alternativa de Fortaleza. Quando o conheci por lá ainda no início de sua trajetória artística, já era nítido o seu enorme talento, criatividade e seu deboche irreverente em torno de outros modos de ser. Lucas Sá nasceu no interior do Maranhão mas foi estudar cinema no interior do Rio Grande do Sul, em Pelotas, na Ufpel.

É incrível como Lucas Sá, a partir do universo de Getúlio, incorporou elementos típicos do seu próprio trabalho de criação, fazendo com que "Sinal Fechado" seja um encontro muito fértil não apenas entre a música e o cinema, mas entre visões de mundo que oferecem um outro olhar totalmente diferente das representações mais tradicionais da cultura nordestina. Ao mesmo tempo, vejo algo que me remete também ao Norte do país, uma influência talvez do universo amazônico e da cultura musical de Belém, um projeto de contemporaneidade em que a tradição está contaminada com os valores globais, numa mistura kitsch com um certo quê de paródia e deboche. Há um clima mágico de sedução e feitiçaria, quase como um pastiche assumido em torno de uma autorreferencialidade. A proposta da música de Getúlio era misturar elementos da música independente do Pará e de Pernambuco, por meio de uma balada romântica escrachada e inusitada.

Lucas Sá incorpora esses elementos inserindo um ingrediente típico de sua filmografia: a criação de uma atmosfera típica dos filmes de terror, em que vemos a influência de um certo giallo italiano como os filmes de Mario Bava e de Dario Argento, um certo tom barroco estilizado pelo decor e pelas cores, mas ao mesmo tempo inserindo uma pitada de irreverência sedutora, uma tendência a um “brega rasgado” que se conecta com os modos de ser de toda uma juventude. Getúlio compõe um personagem numa identidade não binária, entre a violência e a fragilidade, entre o terror e a comédia. O amor está entre a euforia e a melancolia, entre o afeto e a vingança. Uma total fuga dos retratos de filiação realista, mas um mergulho sedutor na busca do delírio e do imaginário. Essa ambiência do cinema de terror italiano dos anos 1970 é combinado também com um conjunto de referências esparsas de um cinema mais pop, ainda que cult, como The Rocky Horror Picture Show, Hellraiser e Christine, entre outros.

Por esse conjunto explícito de referências, busco, por meio dessa provocação, aproximar esse videoclipe do campo do cinema. Assim, considero "Sinal Fechado", desde já, um dos mais potentes curtas realizados neste ano no cinema brasileiro. É notável o talento de Lucas Sá, numa produção totalmente independente, toda realizada no Maranhão, em criar uma atmosfera profundamente cinematográfica a partir da estilização de cada um dos planos. Esse videoclipe é uma continuidade possível de todo um trabalho extremamente refinado desenvolvido por Lucas em torno de um diálogo com o cinema de gênero, em especial no terror, como em "Nua por dentro do couro" (2014).

Considero que Lucas Sá (talvez com Rafael Urban) seja o maior talento dessa geração de realizadores que surgiu a partir de 2005 que ainda não realizou seu primeiro longa-metragem. É uma pena que Lucas ainda não tenha conseguido se associar a um produtor de visão.

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