Pop Ritual (2018): Restaurando a tradição


Em cerca de 100 anos de cinema de horror o vampiro passou por diversas transformações, desde uma criatura abjeta transmissora de doenças, como em Nosferatu (1922), a galã, característica que surgiu pela primeira vez com Bela Lugosi, em Drácula (1931). Nos anos 1980, foi a vez do vampiro vestir jaquetas de couro e incorporar uma personalidade contemporânea, de jovem habitante do submundo, como em Fome de viver (1983), Quando chega a escuridão e Os garotos perdidos (ambos de 1987). Além das características físicas, a figura do vampiro costuma ser metáfora para atitudes comportamentais, como relacionamentos abusivos e exploratórios.

Em Pop Ritual, Mozart Freire, cineasta cearense formado pela Vila das Artes, resgata a tradição das histórias de vampiro, aproveita um pouco destas características preexistentes e, ainda assim, faz um filme muito particular. No curta, um padre mantém um vampiro preso em um quarto e realiza uma série de experimentos com ele. O padre é um homem sóbrio e tradicional, enquanto a criatura, uma figura, alta, magra, andrógina e repleta de adereços, é uma espécie de Nosferatu urbano e contemporâneo.

Desde o início do filme, fica perceptível o tributo que o diretor presta a filmes clássicos do gênero como O Exorcista, evocando a clássica imagem do padre parado diante do prédio. O cativeiro em que o padre mantém o vampiro preso é repleto de imagens sacras, um cruzamento entre o sagrado e o profano que Mozart fizera antes, ainda que de forma mais discreta, em Cinemão (2015), curta-metragem fetichista em celebração aos corpos masculinos. Cinema de câmara, Pop Ritual se baseia na interação entre os dois personagens, confinados, um deles contra sua própria vontade: quem é o vampiro, afinal?

Os artefatos eletrônicos, como televisão de tubo e aparelho de VHS, dão ao filme uma particularidade um pouco retrô, mas que também contempla uma certa reverência aos filmes de formação do diretor. Essa tecnologia hoje obsoleta, também presente no excelente curta-metragem Janaína Overdrive (2016), confere uma certa decadência futurista e, aqui, adquire ares surrealistas em um final surpreendente. É como se as referências fossem ingeridas, digeridas e expelidas, num processo de reciclagem admirável, ainda que visualmente grotesco.

A trilha sonora é assinada por João Victor Barroso, músico que fez carreira em bandas de rock em meados dos anos 2000 e que hoje é reconhecido como um nome proeminente nas trilhas sonoras de horror, sendo colaborador frequente do cineasta Petrus Cariry.

Pop Ritual, terceiro curta-metragem de Mozart Freire, é mais uma incursão do diretor no gênero fantástico, e revela um poder de observação e criatividade para reinventar temas desgastados de maneira singular e vibrante.

Publicação original no catálogo online da Mostra Aceccine 2020

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