Estado Itinerante (2016): Força narrativa através do sugestionamento


A diretora mineira Ana Carolina Soares consegue usar a sutileza para construir a história da personagem Vivi, que é interpretada de maneira impecável pela atriz Lira Ribas. Durante toda a narrativa o que realmente importa não é o que está sendo dito, e sim o que está sugestionado nas entrelinhas do roteiro. Acompanhamos a história de Vivi, uma novata cobradora de ônibus que parece querer passar despercebida pelos novos colegas de trabalho, porém o seu jeito intimista chama mais a atenção do que ela gostaria.

Logo no início, quando Vivi faz uma ligação de um orelhão dizendo para alguém que precisa de um lugar para dormir naquela noite, já faz com que surja uma curiosidade do motivo do seu pedido. Ou ela não tem onde morar ou não quer voltar para casa. A situação seguinte comprova a segunda teoria. O lar que ela mora e que vemos somente do lado de fora, parece assustador, não devido a casa em si, mas a expressão estagnada com que ela observa a janela, aguardando a luz ser apagada para que ela se aproxime do portão.

A partir daí fica claro que ela mora com alguém, um marido ou namorado, que lhe provoca algum tipo de pavor. A diretora incluiu no roteiro uma cena que talvez não fosse tão necessária, que é o som de uma TV bem ao fundo, passando um noticiário sobre a questão de violência doméstica contra mulheres. Por mais que tal recurso tenha sido usado para reforçar o que se passa com a personagem, ele não faria falta diante da construção do roteiro para essa percepção do espectador.

Vale observar que, além da questão da violência dentro de casa, a produção também levanta a questão do assédio moral e físico no trabalho. As colegas de Vivi relatam sobre algumas situações de perigo que passam dentro dos ônibus. E ela mesma passa por momentos tensos com o motorista com quem trabalha. Tais acontecimentos deixam aquela pergunta de sempre: será que seria diferente se fosse com um homem?

Vivi continua o seu trabalho e acaba se aproximando de algumas colegas. Mesmo com o seu jeito acuado e tímido, ela sai com as novas amigas para beber e tentar se divertir um pouco. Em uma dessas noites de boteco, ao ouvir a música “Don’t Cry”, do Guns N’ Roses, Vivi tem uma espécie de catarse emocional. Essa é a cena mais longa e simbólica do filme, e que ainda conta com a participação da diva mineira trans Cristal Lopez. É o momento de respiro e do sentimento de emancipação da personagem. A vontade de romper suas amarras físicas e psicológicas para viver sua vida de maneira plena e libertadora.

A produção, que é de 2016, percorreu diversos festivais nacionais e internacionais, ganhando diversos prêmios, como no Festival de Brasília onde levou o de Prêmio Especial do Júri de Melhor Curta-Metragem e também de Melhor Atriz para Lira Ribas. Foi escolhido também pela ABRACCINE e ACECCINE como o Melhor Curta deste mesmo ano.

Publicação original no catálogo online da Mostra Aceccine 2020

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