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O Farol (2018): O estranhamento construtivo de um terror referencial

07/01/2020

 

Existe um estranhamento muito visível em uma obra como "O Farol". Mas para além dessa percepção, que apreendemos no filme desde os seus primeiros minutos, há um interessantíssimo projeto assinado pelo realizador norte-americano Robert Eggers em uma defesa clara a um cinema de terror que se pensa e se propõe a partir de certas diretrizes muito bem definidas. 

 

Em duas linha, à propósito, podemos apresentar a ideia geral do longa. Dois faroleiros tentam manter suas sanidades mentais e físicas enquanto vivem juntos em uma isolada e misteriosa ilha da Nova Inglaterra do final dos anos 1890. A ideia de economia é uma dessas demarcações que expandem precisamente a proposta deste segundo trabalho do norte-americano Robert Eggers. 

 

O elenco tem três atores. A trama se desenrola entre Thomas Howard (Robert Pattinson), Thomas Wake (Willem Dafoe) e a Sereia (Valeriia Karaman). Essa redução dramatúrgica funciona muito bem na experiência do cinema, sobretudo quando falamos de uma espécie de retorno ao exercício do fazer cinematográfico industrial em uma escala de contingenciamento. Para produções de baixo orçamento, essa é uma lógica quase primária. 

 

Mas considerando o cinema na sua lógica das grandes e médias companhias, como a A24, por exemplo, propor “mais com menos” pressupõe essa instigante investigação e aprofundamento nas raízes da estória a ser contada e nos modos como os recursos técnicos complementam essa proposta audiovisual focada em uma zona intermediária da realização. Há um coeficiente art house e sua proposta de nicho, mas alinhado ao gênero como sua partícula fundante. 

 

A defesa dessa perspectiva é importante porque ela anula o julgo contraproducente que coloca o cinema em um campo de polarização improdutiva. Os aspectos da forma no filme, como o uso da fotografia em preto e branco, das lentes específicas em 35 mm de produções do início do século XX, ou da tela quadrada de formato 19:1, legitimam esse desejo do diretor em referenciar um pré-cinema a partir daquilo o que o cinema narrativo contemporâneo pode ser hoje. 

 

Não se trata de um desejo fetichista. A mão do autor está impressa em cada plano e sequência que constituem o longa em suas 1 horas e 50 minutos de duração. Há uma perspectiva técnico-conceitual aqui difícil de ser ignorada. Há o índice minimalista como dissemos, mas notamos um vezo historicista muito latente. Parte do roteiro que Eggers escreveu junto com seu irmão, Max Eggers, foi construído com base em antigos diários de faroleiros do início do século XX e relatos de trabalhadores daquele período.

 

E toda essa pesquisa de O Farol se concretiza na obra a partir de valiosos detalhes percebidos na Direção de Arte do filme, por exemplo. Não bastaria tratar da indumentária desses personagens para fazê-los críveis. A maquiagem que os tornam mais acinzentados e os fazem quase parte homônima de cada pedaço daquela velha ilha são fundamentais para essa construção de sentido e contexto fílmicos. 

 

Além das próprias referências à cinematografia clássica do terror como "A Carruagem Fantasma", de Victor Sjostrom; "O Golem", de Carl Boese e Paul Wegener; ou "O Gabinete do Dr. Caligaris", de Robert Wiene, todas elas obras realizadas no ano de 1920. São pontos de cruzamentos que reafirmam esse caráter intertemporal do cinema.

 

Enquanto uma obra de terror, portanto, um trabalho de gênero, o longa se apresenta na sua integralidade como tal. Não percebemos tanto elementos mais convencionais como “jumps scares” ou cenas de perseguição por algum monstro. Essa figura à propósito, é colocada como uma espécie de enigma constitutivo da estória. O medo em O Farol emerge não necessariamente daquilo ou de algo que esteja buscando aniquilar seus protagonistas. Mas talvez resida na natureza desses dois homens. 

 

Percebê-los como uma possível metáfora visual para a ideia de uma dualidade autodestrutiva certamente é o índice de maior potência do longa. O que é psicologismo e o que é evento concreto nessa viagem perturbadora no que há de pior e de mais intrigante quando lidamos com a natureza humana? 

 

Para isso, os irmãos Eggers não nos dão respostas prontas. O que é ótimo! Uma vez que uma das intenções primordiais do cinema não é nos dar visões completas da experiência que temos com o filme. Mas sim, juntarmos parte do repertório que temos e a partir das nossas interpretações, em contato com a arte, irmos para a obra seguinte. E assim por diante. 

 

Publicado pelo Autor no site Um Filme ou Dois

 

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