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© 2019 Aceccine - Associação Cearense de Críticos de Cinema

13º For Rainbow: o movimento em movimento

 

À ideia de mobilidade urbana, do poder ir e vir em uma grande capital ou cidade, é possível - é preciso - adicionar recortes e questões que vão além da organização do fluxo de carros, bicicletas e transportes públicos ou da padronização de calçadas para auxiliar nos caminhos para pessoas com dificuldades de locomoção. Que corpos podem caminhar de maneira mais livre? Que corpos carregam consigo pesos que dificultam um traslado a pé? As linhas de ônibus ligam que pontos da cidade? Que outros não são atendidos pelo transporte público? Pensar em quem circula e em como circular em uma cidade passa por pensar questões de raça, classe, gênero e sexualidade que marcam trajetos de certos corpos.

"Que Os Olhos Ruins Não Te Enxerguem", de Roberto Maty com codireção de Thabata Vecchio e produzido pelo coletivo Lentes Periféricas, é um filme essencialmente urbano, metropolitano. A sinopse oficial informa que, para discutir recortes de gênero, classe e raça dentro da comunidade LGBTQI+, o filme “acompanha personagens que percorrem a metrópole ao mesmo tempo que narram suas vidas, sonhos e afetos”.

“Acompanhar”. Ir junto. O documentário tem um quê de Kiarostami ao estruturar a maior parte das entrevistas com as personagens que destaca numa ideia de trânsito - seja em qual modal for. Há o transporte público, do ônibus ao metrô. Há bicicleta. Há carro. Há o andar a pé. Muitas das histórias, a maioria delas, a essência delas, são divididas nesses trajetos. O caráter do “ir junto” por vezes é literal: Roberto, que assina a direção, surge em alguns planos no papel de ouvinte atento e empático com a história que está sendo dividida.

O movimento entre os modais é elemento tanto formal quanto conteudístico do filme. Formalmente, a ideia de se estruturar de maneira “passageira” acaba sendo crucial para o documentário em termos de montagem. Cada personagem ganha uma viagem de 5, 10, 15 minutos, e a grande maioria deles não “volta” a ganhar maior destaque depois. Enquanto assunto debatido, há passagens como aquelas em que algumas das personagens falam que ter que pegar transporte público dificulta o acesso à ainda centralizada cultura. Em outro momento, a obra acompanha duas entrevistadas e uma delas avalia que “dá” para entrar no ônibus, sim; a câmera, então, nos leva para dentro do coletivo lotado. Há, ainda, a personagem que diz preferir fazer seus deslocamentos de bicicleta, por ser uma forma de sentir menos diretamente o racismo e a transfobia

Para além de questões estéticas, técnicas, formais ou de discurso, "Que os olhos ruins não te enxerguem" é louvável pura e simplesmente por mostrar ao longo de sua duração tantos corpos tão distintos entre si e distintos da regra movendo-se pela cidade. Há um gesto bem afirmativo nisso, algo que também está presente nas próprias falas do filme. Há, sim, questões, problemas, lamentações, medos, mas, ainda que presentes, esses elementos não norteiam o filme. O que há, sim, é a afirmação dessas vidas que, em movimento, apontam, seguem e nos convidam a ir juntos em frente, para o possível.

 

João Gabriel integrou o júri Aceccine do 13º For Rainbow - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual, em novembro de 2019. Confira os filmes premiados.

 

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