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Atlantique (2019), de Mati Diop

04/12/2019

 

- Você só fica olhando o mar. Nem olhou pra mim

Abraçados de frente para um mar de aparência apática, Ada pede atenção a Souleiman, homem por quem está apaixonada apesar de ter sido prometida a um casamento. Ali existe um amor secreto que acontece na ingenuidade, no carinho, em torno de um desejo de liberdade, sentimento que constantemente oferece o conforto e o conflito aos caminhos dessa história.

Souleiman é apenas um dos vários operários sucateados pelo esfera do capital, fazendo parte de um coro que exige pagamento por seus serviços quase três meses atrasados. Como resposta, seu “superior” consegue responder apenas que “isso é não é culpa nossa”, principalmente porque também se inclui à margem do poder. Na cena do diálogo acima, Ada nem imagina que Souleiman encara o oceano atlântico como uma resposta possível à sobrevivência: fugir dali, tentar uma vida noutro continente, migrar sem rumo atrás de emprego.

Essa é a realidade que "Atlantique" se debruça, traduzindo a emergência desse sentimento a uma história de amor clássica apenas pela estrutura. Souleiman parte sem conseguir avisá-la e Ada sofre com a ausência que permanece. Mas o que Mati Diop realmente quer dizer é ainda mais especial, evocando à partir disso um senso de justiça, um recorte de classe e uma história de fantasmas, parte que mais impressiona em seus 100 minutos de duração. Parece não haver muito com o que compará-lo, já que a roupagem de uma ficção espiritual faz desta uma mistura muito bonita de sensações e significados.

Mame Bineta Sane faz de Ada uma menina-mulher que entende a própria realidade dando voz a si mesma apesar do cenário de submissão. É bonita sua revolta, seu medo, sua coragem - há uma cena especial em que encara a câmera numa fala sobre sua percepção da própria identidade transformada pelo que viveu à margem do oceano.

O mar que surge em "Atlantique" não é o verde do Ceará, muito menos o caloroso da Califórnia, mas uma paisagem homogênea e desoladora. O horizonte some ao se confundir com o céu, e está claro o que essa imagem significa para o destino de Souleiman. Responsável pela sensibilidade dessa imagem, Claire Mathon fotografou também "Um Estranho no Lago", de Alain Guiraudie, thriller onde a praia e o mar já encontram outro significado de liberdade.

Escrito por Diop e Olivier Demangel, o roteiro guia as transformações sensíveis à partir desse mesmo mar que ecoa como um passado impossível de esquecer - não à toa, o som da ressaca parece invadir constantemente as imagens. Quando sente Souleiman de volta, Mathon fotografa Ada numa boate de praia sendo iluminada por um globo circular: as luzes caminham por seu corpo ao ritmo das ondas que batem ao lado. É desse mar que liga o continente africano à tantas histórias de opressão pelo mundo que Souleiman pode aparecer novamente. E se ele voltar, como que ele volta?

Esse é o grande mistério evocado numa eterna sensação de dormência, laçando a prisão de Ada com a esperança de alguma forma de justiça social. Não por Ada, mas pela justiça, que esses espíritos parecem ainda viver pelos oceanos. Uma sequência específica me lembra "Currais", documentário de Sabina Colares e David Aguiar sobre os campos de concentrações esquecidos no interior do Ceará - numa cena, um sertanejo diz ouvir passos na casa que um dia foi próxima a um espaço de confinamento trágico.

Apesar de ser sutil em seu afeto, a trama e suas construções são bastante explícitas. A caminhada noturna das mulheres diante os espíritos é uma mensagem apresentada com pouco impacto imediato, mas que acaba tornando o mistério ainda mais engenhoso sobre o rumo de Ada e Souleiman. Diop entende tanto sobre essa grosseria que reserva ao desfecho uma das cenas mais atraentes do ano.

"Atlantique" não se resolve, mas ao desenhar novos sentimentos de identidade social, parece deixar seu espectador tão apaixonado quanto aflito. Essa história, afinal, é tão moderna quanto das mais antigas: o amor que não é só impossível por prisões sociais, mas porquê há uma realidade capital que destrói os corpos de ambos os lados dessa vontade de ser livre. 

 

Publicado pelo Autor no Quarto Ato
 

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