• Thiago César

A Balada de Buster Scruggs (2018), de Joel e Ethan Coen


O faroeste não é novidade para os irmãos Joel e Ethan Coen. Os cineastas, que já flertaram com o gênero em Onde os Fracos Não Têm Vez e adentraram-no diretamente em Bravura Indômita, estreiam no canal de streaming Netflix com The Ballad of Buster Scruggs. O longa é uma antologia de seis histórias no contexto do Velho Oeste que passeiam entre a comédia e o drama com a reconhecida desenvoltura dos irmãos.

Com toques de violência explícita, humor negro e diálogos pouco convencionais, o roteiro dos Coen conta não só com histórias originais, como adapta contos de famosos escritores do período em questão, como Jack London e Stewart Edward White. Da bizarra e divertida comédia que dá título ao longa à densidade quase fúnebre de “Meal Ticket”, a diversidade de estilos entre as pequenas histórias permite que a narrativa paciente dos diretores se assente sem prejuízo do ritmo nas mais de duas horas de duração.

O design de produção de Jess Gonchor e a fotografia de Bruno Delbonnel, ambos já parceiros dos irmãos Coen de outros trabalhos, garantem um visual pitoresco na proposta de “causos”, mas sem perder a autenticidade do gênero. As cores saturadas e contrastadas e os enquadramentos compostos como pinturas, ao mesmo tempo em que beneficiam o caráter estético, definem um teor quase paródico que as narrativas podem adquirir.

Aliás, esse tom de paródia é tendência na filmografia dos irmãos Coen. Aqui, temos proposta que se aproxima mais de Fargo e E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? do que de Onde os Fracos Não Têm Vez ou Inside Llewyn David: Balada de um Homem Comum. Os personagens parecem caricaturas limitadas à própria história, colaborando ainda mais para o caráter folclórico da obra, onde as consequências não parecem ser levadas tão à sério quanto à tragicidade dos fatos em si.

Longe da intenção de se configurar como um profundo mergulho no período do Velho Oeste, The Ballad of Buster Struggs é uma homenagem de dois apaixonados pelo gênero. Isso não quer dizer que os costumes, a moral e o contexto histórico não sejam retratados fiel e respeitosamente. Porém, é pela forma particular e crítica de adentrar neste ambiente que os irmãos Coen validam seu abraço ao faroeste em uma das melhores surpresas produzidas pela Netflix em 2018.

Publicado pelo Autor no site Cinemaginando