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A Favorita (2018), de Yorgos Lanthimos

28/01/2019

 

O cinema de Yorgos Lanthimos causa estranheza. O diretor grego prioriza obras autorais, onde o humor negro, o roteiro inconvencional, os personagens dissonantes e os temas pessoais são frequentes e possibilitam ao cineasta desenvolver seu estilo peculiar de narrativa. A fuga dos padrões costuma dificultar a visibilidade e a aceitação de seus filmes pelo grande público no circuito comercial, mas ao mesmo tempo adquirem um grande prestígio da crítica. Em "A Favorita", seu sétimo longa na carreira e terceiro em Hollywood, Lanthimos lançou mão da comédia de forma mais evidente e obteve um aparente equilíbrio entre público e crítica, rendendo ao longa 10 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme.

 

A trama, baseada levemente em fatos, se passa na Inglaterra do século XVIII, onde acompanhamos a disputa entre uma importante figura da corte, Lady Sarah (Rachel Weisz) e a criada e ex-Lady recém-chegada Abigail (Emma Stone) pela amizade e influência na Rainha Anne (Olivia Colman), por amor ou por status. Numa espécie de triângulo amoroso nada amistoso, as três atrizes brilham em seus papéis, com o merecido reconhecimento da Academia para todas elas.

 

Emma Stone faz o que sabe de melhor em seu tipo costumeiro, sentindo-se à vontade no gênero de comédia, embora não saia de seu lugar-comum. Rachel Weisz já entrega uma performance mais contida e coerente com sua personagem, e justamente por isso demonstra algo mais interessante com seu humor sutil e sarcástico. Porém, Olivia Colman é a grande estrela do longa. Sua atuação espalhafatosa, que varia do cômico ao trágico com uma desenvoltura que rouba as cenas, vai de acordo com a proposta do longa e torna sua personagem a mais complexa em meio a todos os tipos esquisitos que permeiam a trama.

 

Este é um dos poucos filmes de Lanthimos em que o próprio não está envolvido na produção do roteiro. Entretanto, o texto escrito por Deborah Davis e Tony McNamara soa como criação do próprio diretor, rendendo aos autores uma indicação ao Oscar. Considerando que Davis é estreante no setor e McNamara tem mais experiência em séries, sendo creditado como roteirista em longa apenas no que também dirigiu, vale reconhecer a sintonia dos escritores com o estranho modo narrativo do cineasta.

 

Os palavrões e comentários de cunho sexual falados de maneira tão aberta e natural nos diálogos contrapõem o ideal polido que se tem da classe aristocrata. Os jogos sujos de poder e a ridicularização dos personagens funcionam como uma paródia ácida e sagaz no qual as figuras mais nobres da sociedade são retratadas sem máscaras e rebaixadas ao nível da mesquinharia e da incompetência.

 

A fotografia de Robbie Ryan, com suas lentes grande-angulares – por vezes, olho-de-peixe –, exaltam a artificialidade do ambiente Real e a dramaturgia quase teatral de seus residentes. Tais aspectos também ecoam no design de produção de Fiona Crombie e no figurino de Sandy Powell – ambas também agraciadas com indicações –, evocando exagero e pomposidade que maqueiam a falência moral e política dos governantes.

 

Este trabalho visual permite que Lanthimos passeie por uma estética até então inédita em suas obras anteriores. Mesmo não sendo o mais intenso de seus filmes no sentido narrativo e pessoal, "A Favorita" apresenta grandes méritos em si mesmo. Ao mesmo tempo em que resgata o tom caricatural das comédias dos anos 40 e 50 mesclado a uma estética atual que permite certos experimentalismos de linguagem, ainda mantém a atmosfera indie tão presente nas obras do cineasta.

 

Publicado pelo autor no Cinemaginando

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