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© 2019 Aceccine - Associação Cearense de Críticos de Cinema

For Rainbow 2018 | Pensar a diversidade

07/01/2019

 

O 12º For Rainbow - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual aconteceu entre os dias 21 e 27 de novembro de 2018, no Cinema do Dragão do Mar, e contou com a exibição total de 27 filmes, entre longas e curtas-metragens, vindos de várias partes do Brasil e do mundo. Trata-se de um festival que celebra a diversidade de gênero em toda sua abrangência de cores, sabores e expressões artísticas. 

 

A premiação dos filmes se dividiu entre o júri oficial, que nessa edição foi integrada somente por mulheres, e o júri da crítica , que desde 2016 é composto por membros da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). Juntamente com o Diego Benevides e Érico Araújo Lima, tive a oportunidade e o privilégio de desempenhar a função de jurada do festival. Foram dias e horas vendo, pensando e discutindo cinema e, mais especificamente, o cinema não só como arte, mas como instrumento de voz daqueles que são considerados “minorias” em relação às discussões de políticas públicas e de direitos por parte dos nossos governantes.

 

Escolher o melhor longa e melhor curta-metragem não foi fácil, principalmente em um festival que trouxe tantas produções que se voltaram à temáticas tão importantes e, muitas vezes, quase inexistentes dentro do mercado cinematográfico, no que diz respeito ao que entra em circuito nas salas de exibição. A título de exemplo, o curta vindo do Mato Grosso, “Majur” (foto), dirigido por Rafael Irineu. O filme acompanha a vida de Gilmar, que é índio, da etnia Bororo, e é Chefe de Comunicação da Aldeia Poboré. É ele mesmo quem explica um pouco sobre o seu trabalho com os índios da aldeia junto à prefeitura, principalmente para ajudar as crianças indígenas a conseguirem vagas nas escolas públicas da região. Por esse trabalho, ele é uma pessoa bastante respeitada na aldeia. Somente na metade do curta é que ele se apresenta como Majur, dizendo que ganhou esse apelido por ter um lado feminino e gostar de se maquiar. E com esse nome ele se identifica de uma maneira muito natural, tanto para sua família, como para os amigos. O que chama a atenção do filme é justamente o respeito com que a narrativa se apresenta. Há um momento em que Majur comenta que, antigamente, era comum na sua comunidade indígena haver casamentos entre pessoas do mesmo sexo, e que o preconceito foi inserido pelo homem branco. Essa fala de Majur enaltece a proposta do filme, que consegue projetar um olhar de reverência para seu/sua protagonista.

 

Já o curta de ficção “Do Outro Lado”, de São Paulo, é dirigido por Bob Yang e seu companheiro Frederico Evaristo. O filme traz, na delicadeza de seus enquadramentos, um roteiro que surpreende e emociona. O curta anterior de Yang, “O Chá do General”, ganhou mais de 30 prêmios em festivais pelo mundo, inclusive na edição de 2017 do For Rainbow. Neste segundo trabalho, ele mantém o seu estilo de filmagem, bem como de ambientar seus personagens em algum país do leste asiático. Enquanto em “O Chá do General” a história acontece na China, “Do Outro Lado” se passa em Taiwan. A narrativa acontece com a leitura de uma carta de um filho, que está no Brasil, para sua mãe, que mora em Taiwan. Porém, tais detalhes vão sendo desvendados aos poucos, até compreendermos o real motivo e a importância da carta.

 

Saindo dos curtas e indo para os longas, “Fabiana” foi o documentário merecidamente premiado pelo Júri Oficial do festival. Dirigido pela paulista Brunna Laboissière, é um desses filmes que nasceram do acaso, se é que ele existe. A diretora falou um pouco antes da exibição e contou que estava viajando de carona em caminhões, até que um dia ela se deparou com a caminhoneira Fabiana. Elas conversam bastante durante toda a viagem e, imediatamente, Brunna decidiu que precisa fazer um documentário sobre essa mulher. Não só pelo fato de ser uma mulher em uma profissão considerada masculina, mas principalmente pela história de vida dela. Um aspecto interessante no filme que merece destaque são os momentos de interação entre a diretora e as pessoas que aparecem em cena. Brunna poderia ter optado em ocultar isso na montagem, mas preferiu manter, fazendo assim com que ela se torne uma espécie de personagem oculta, se fazendo presente no filme, em algumas ocasiões, sem aparecer explicitamente. Pode-se dizer que tal escolha expressa uma integridade e honestidade em relação a abordagem do filme. Fabiana vai se revelando uma mulher de muitas histórias e amores. Tudo isso com um estilo de humor muito próprio.

 

E para fechar a programação do festival com chave de ouro foi exibido o longa premiado no Festival de Berlim, “Tinta Bruta”. Dirigido pelo casal gaúcho Felipe Matzembacher e Márcio Reolon, o longa recebeu prêmios e uma enxurrada de elogios por onde passou. Foi o filme mais premiado na edição do festival: melhor edição, desenho sonoro, fotografia, roteiro e ator para Shico Menegat, que esteve presente na exibição. Por essas e por outras foi tão difícil para nós, do júri da crítica, decidirmos qual seria o melhor curta e melhor longa do festival. Aquilo que parecia ser tão simples, escolher somente dois filmes, foi justamente o mais difícil, principalmente entre tantas obras de qualidade e de questões tão pertinentes para os dias atuais. Um festival gratuito como o For Rainbow vem se mostrando cada vez mais importante não só dentro do cenário cinematográfico, mas também social, permitindo ao público reflexões acerca da diversidade, numa perspectiva de respeito à dignidade das pessoas.
 

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