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For Rainbow 2018 | As cores da cidade

07/01/2019

 

Em tempos de regressão moral da sociedade, ter um festival como o For Rainbow em plena atividade em Fortaleza é, antes de tudo, um alívio. Sabemos que não tem sido fácil manter a rotina anual do evento, sempre feito com muito esforço e dedicação por uma equipe afetuosa, mas sua plena existência no calendário cultural da cidade é um ato político de resistência. Durante uma semana, a programação faz uma mistura eclética de cinema e outras manifestações artísticas que tomam o entorno o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, mostrando a força e a união do público LGBTQ+ por meio da arte.

 

A cidade se colore de abraços e outros gestos de afeto que são indispensáveis na luta coletiva pelo respeito e contra o preconceito. Nas mostras competitivas de filmes, o For Rainbow aposta na diversidade literal dos assuntos que partem do contexto LGBTQ+. Os filmes discutem gênero e sexualidade de forma plural, sem concentrar suas histórias em apenas um segmento temático. O ato de exibir um filme, independente do reconhecimento de uma perfeição narrativa ou estética, basta para colocar em pauta as questões da comunidade, que reverberam para além dos sete dias de festival.

 

Se as cores falam tanto sobre liberdade, elas também definem a experiência de ver "Tinta Bruta", dirigido pelos gaúchos Felipe Matzembacher e Márcio Reolon, o principal premiado pelo júri oficial desse ano. A trama transita facilmente entre os conflitos íntimos de um jovem, a sensualidade dos corpos em combustão e a crítica social. Se no filme anterior da dupla, "Beira Mar", vimos uma história um pouco mais contida do processo de descoberta da sexualidade, dessa vez temos uma obra extremamente magnética sobre desejos e sonhos (ou a falta deles) na vida de um jovem introspectivo que faz shows explícitos na internet. De casa, Pedro (interpretado pelo estreante Shico Menegat) se expõe para o mundo exterior o seu próprio avatar, uma construção conturbada do que ele é e do que ele busca ser. Quando está fora de casa, parece que seu desejo é de fugir e se isolar para não precisar enfrentar o mundo.

 

Ao conhecer Leo, um belo jovem que também faz shows na internet usando tintas neons, Pedro encontra a possibilidade de viver uma paixão. Mesmo com tantos conflitos pessoais, um processo correndo na justiça e a solidão de seu apartamento, ele se permite viver um amor que é tão inesperado quanto finito. Matzembacher e Reolon se preocupam, sobretudo, em atribuir humanidade a todos esses personagens, que parecem viver em uma fronteira impermeável. Eles desejam sair daquela Porto Alegre cinza, apática, mórbida, mas todos os movimentos de seus corpos parecem indicar uma permanência indesejada. Pedro e Leo são refúgio um do outro, uma possibilidade de trabalhar as dores que nos afetam fortemente. Entre eles, a cumplicidade também é sinal de liberdade, ou de um começo de libertação.

 

Os diretores também falam sobre as formas de ver o outro. O olhar está presente no filme inteiro, seja o olhar voyeur de quem assiste aos shows anonimamente, seja o olhar curioso, mas impotente, que saem das janelas dos apartamentos, ou mesmo o olhar banal das pessoas ao redor que parecem julgar Pedro e Leo a todo momento. São os olhares de mistério, de incerteza, de vazio, de impotência, de intolerância e, também, olhares de mudança. Enquanto vivem suas jornadas pessoais, os jovens buscam se movimentar, se locomover, sair daqueles espaços que forjam uma segurança que não existe. Pedro não é apenas uma vítima da sociedade, mas é também dele mesmo. A prisão não é só geográfica, é íntima.

 

As cores brilhantes do neon que escorre no corpo, a coreografia que sexualiza os corpos e os sentimentos que surgem como válvula de escape são apenas algumas metáforas desses dois jovens que buscam se encontrar no mundo. Matzembacher e Reolon dirigem com segurança essa história tão complexa e hipnotizante, cientes de que finais felizes podem ser relativos e dependem do ponto de vista de quem vê. "Tinta Bruta" mostra o amadurecimento desses dois jovens diretores que falam sobre seus semelhantes de forma sincera e atenciosa, capaz de preencher a alma de cores, carinhos e esperança. Mesmo que o mundo pareça querer tirar tudo isso de nós.

 

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