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For Rainbow 2018 | Alinhavar a companhia

 

Pensei em escrever algumas palavras breves e precárias, que tentariam uma primeira aproximação ao filme "Fabiana", de Brunna Laboissière, visto no 12º For Rainbow - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual. 

 

Antes de passar efetivamente ao longa-metragem, valeria dizer da urgente inserção do festival na vida política, participando de um conjunto de lutas, que encontram no cinema um aliado. Os filmes apontam para a necessária reflexão sobre processos que os transbordam e, simultaneamente, materializam múltiplas formas de expressão capazes de interpelar o presente. O For Rainbow deste ano, em especial, foi inevitavelmente, um acontecimento que combina as potências do cinema como lugar de invenção imaginativa e como máquina de interpelação, dirigindo a uma comunidade de quem vê e escuta uma verdadeira energia política: a saída da sala de cinema é um caminhar com a crença na vitalidade das lutas que seguem e seguirão, fortalecidas para combate obstinado às distintas maneiras de silenciamento e extermínio em nossos tempos. 

 

Ver cada filme do Festival foi, sobretudo, uma experiência de escuta e de aprendizado. É desde essa posição que tentarei aqui comentar algumas das muitas forças do filme de Brunna Laboissière, focando especialmente a ideia de que ele elabora, na viagem, uma experiência de proximidade bastante densa e sensível aos modos de costurar relações – aliança – entre mundos diversos.

 

O filme vem dizer sobre um gesto de fazer do cinema uma companhia. Câmera colocada ao lado, trata-se de captar uma última viagem de Fabiana, mulher trans que está em vias de se aposentar, após trinta anos no trabalho de caminhoneira. Câmera colocada ao lado, Brunna viaja com Fabiana, as duas juntas nessa última viagem de uma delas. Às vezes, o silêncio é uma ligação, que permite a emergência da palavra. A viagem é marcada por uma experiência temporal, que parece dizer de uma duração necessária para surgir a narração de uma história. Nesse tempo decantado da companhia, o filme parece expor algo da própria relação que se tece entre as duas mulheres que viajam juntas. 

 

Alinhavando conexões entre a atualidade da travessia e o seu fora, Fabiana também nos alça a uma memória, que é sempre exposta na medida de quem conta, na medida do próprio desejo da protagonista em costurar o relato em cena. Se uma rememoração acontece sempre de modo lacunar, cabe justo acolher as histórias que se quer contar, quando e como. Outro gesto do filme que parece nos dizer do seu movimento de companhia: longe de demandar constantemente a Fabiana qualquer história, cabe encontrar na viagem a justa medida da escuta, o modo de se inserir no fluxo de uma vida e de aguardar o convite para adentrar a travessia de uma memória. 

 

Outros espaços e interlocuções são também sempre convocados, nas conversas de telefone ou por meio do rádio transmissor do caminhão. Nesses instantes, multiplica-se a cena da conversação, e o caminhão torna-se uma espécie de espaço conector. Nesses momentos, ainda, o filme também não se apressa em contextualizar como surge um diálogo, mas busca captar o seu transcorrer. Também é Fabiana que se torna uma mediadora para outras aproximações, especialmente quando se trata de adentrar casas em meio à travessia. Se uma relação se trama no compartilhar de uma viagem, trata-se de multiplicar essa conectividade, a partir da hospitalidade gerada por meio desse encontro de base. 

 

Por meio de vários desses gestos, e tantos outros, "Fabiana" expõe também uma postura, que é a da própria realizadora e do seu avizinhamento ao mundo de Fabiana, especialmente desde o dispositivo de viverem juntas uma travessia. Por meio desse trabalho, o filme nos ensina sobre formas sensíveis para costurar o encontro. Para além de uma evidência reflexiva da mediação ou de atos de exposição do antecampo (são poucos os momentos em que algo dessa natureza se passa), o filme constrói uma proximidade e um engajamento na cena, ao inscrever na sua materialidade o gestar paciente da companhia e da acolhida dos tempos e imprevistos de uma viagem – na qual as duas, cada uma à sua maneira, estão implicadas. 

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