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NOIA 2018 | Universidade, política com as próprias mãos

08/11/2018

A ascensão das políticas culturais investidas na criação de núcleos federais de ensino ou no fortalecimento nas esferas municipal e estadual, fez com que um impulso de redescoberta guiasse cada vez mais as produções audiovisuais universitárias. É comum, por exemplo, que emergências que assolam o mundo sejam identificadas pelo ambiente universitário, principalmente pela liberdade de pensamento promovida no espaço. É por isso que o Noia, festival do audiovisual brasileiro, é tão importante como uma atualização do que vem sendo discutido e necessariamente produzido nesse ambiente. Em 2018, numa das crises mais absurdas que o país já testemunhou, uma parcela interessante das obras selecionadas vai na contramão do óbvio, à favor de uma resistência que ultrapassa o ativismo e encontra o perigoso campo da alegoria, da criação de uma pseudo-realidade.

 

“Tá todo mundo delirando”, diz um perambulante em uma das cenas do curta “Eterna Reforma”, de Bruno Sanábio e Manuella Guerra. O experimental observa a desconstrução da humanidade nas questões da moralidade, da ordem, situação conferida às ruínas que despejam sobre uma pintura sagrada. Em seguida, enquanto dois grupos parecem brigar por algum motivo, o último personagem diz que “não tem nada a ver com isso”, e a obra encontra um caminho de urgência contrário aos discursos de uma análise realmente crítica. É imediato perceber que aqui fora a situação é semelhante, já que independente de lado ou defesa, está todo mundo no mesmo rumo, convivendo com o mesmo delírio - e o que menos importa é de onde veio a culpa.

 

O carioca “Vidas Cinzas”, de Leonardo Martinelli, registra uma Rio de Janeiro que teve suas cores apagadas pelo poder público. Em um brilhante estilo de falso documentário, depoentes desconhecidos e famosos da cidade reforçam a resistência da “nova” direita brasileira contra a expansão de uma cultura que incita o incômodo, que prefere não ter um lugar, que está sempre a frente de nossas conversas morais. “Quanto Craude no meu Sovaco”, de Duda Menezes e Fefa Lins, é um apontamento contra essa moralidade que reflete sobre o incômodo com os espaços do corpo feminino, concluindo-se na resolução violenta de silenciamento que andamos pregando enquanto sociedade.

 

Quanto a essas questões de transgressão ao conservadorismo, é uma pena que o recorte LGBT do festival não tenha ultrapassado o comodismo dos mesmos discursos. Com exceção de “Primavera de Fernanda”, que chega perto de emocionar com o protagonismo trans, e “Tommy Brilho”, que basicamente se sustenta pelo ineditismo dos efeitos visuais, as obras pouco conseguem revolucionar a temática. Por outro lado, é inspirador que esse déficit faça com que se destaquem outras temas de um cinema politicamente atual. Por exemplo, quando poderia imaginar que emocionaria tanto com um curta-metragem sobre bronzeamento? “Kris Bronze”, de Larry Machado, vencedor do prêmio da Crítica, faz uma observação única sobre o corpo feminino, sobre o desejo, a propriedade da beleza, colocando em evidência uma constatação sobre herança econômica que o Brasil deixou para Kris, uma mulher que administra a própria revolução.

 

O feminismo, por exemplo, está em duas provocantes ficções com vampiras, num documentário sobre uma ex-carcereira apagada pelo machismo, no já citado acima sobre o controle do sovaco feminino, num fic-doc em formato de denúncia, numa trans que está em busca de emprego. Ao fim do 17º Noia - Festival do Audiovisual Universitário, a satisfação é preenchida porque no recorte geral da curadoria há, apesar dos percalços, um cinema que sabe ser político de maneira ampla e no sentido mais revolucionário da palavra. É, principalmente, uma produção que sabe ser atual sem ser tão óbvia, que consegue fazer reflexões muito bonitas sobre o que estamos fazendo com nós mesmos, atentar sobre o riscos que estamos correndo desde já. No entanto, apesar de tudo que ameaça acontecer, não parece ser tarefa fácil calarem a liberdade dessas universidades. Ainda ouviremos muito barulho.

 

Arthur Gadelha integrou o júri Aceccine do 17º NOIA - Festival do Audiovisual Universitário, em outubro de 2018.

 

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