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Cachorros, de Marcela Said (2017)

10/08/2018

Assim como o Brasil, o Chile também viveu um período de Ditadura de Militar. O golpe de Estado foi liderado por General Augusto Pinochet que no ano de 1973 depôs o então presidente eleito Salvador Allende. A ditadura chilena durou até 1990 e foi marcada como sendo um período de muita censura e violência. Registra-se algo em torno de 3 mil mortes e 40 mil pessoas torturadas.

 

Em 2001 a cineasta chilena Marcela Said dirigiu o documentário intitulado I Love Pinochet, que mostra a voz da direita do país, cujo pensamento é a favor do regime imposto pelo ditador Pinochet. Na sua mais recente produção, Cachorros (Los Perros), Marcela mostra novamente o seu interesse em analisar o ideal conservador e autoritário existente na sociedade chilena, porém aqui na ficção ela traz essa abordagem de uma maneira imensamente indireta.

 

Marina (Antonia Zegers) é filha de um milionário empresário (Alejandro Sieveking) e vive uma vida que parece ser completamente indiferente ao mundo que habita. Resolve fazer aulas de equitação com uma amiga, cujo professor é interpretado pelo ator Alfredo Castro, conhecido por filmes como O Clube (El Club, 2015) e o bizarramente fantástico Tony Manero (idem, 2008), de Pablo Larrain. Um dia, durante a aula, Marina é surpreendida ao saber que seu professor está sendo acusado num processo que envolve questões de direitos humanos ocorridos na época da ditadura. Tal fato faz com que ela sinta uma hipnótica obsessão para saber exatamente o que ele fez. Ao ponto de seduzir o policial que investiga o caso.

 

Marina é casada com Pedro, interpretado por Rafael Spregelburd, de O Homem ao Lado (El Hombre de al Lado, 2011). Ele é argentino e parte de seus familiares estão presos por crimes cometidos também na época do regime ditatorial ocorrido em seu país. Marina conta isso de uma maneira nada delicada, uma vez que a relação do casal ocorre sempre de maneira hostil. Aliás, essa parece ser uma característica dos homens que a cercam: O pai, o marido, o professor. Todos a tratam como se ela fosse de menor importância. Por sua vez, Marina se mostra cínica e arrogante, o que podemos considerar que esse seu comportamento funciona justamente como um reflexo do meio elitista em que vive.

 

A narrativa do filme cria uma expectativa como se algo surpreendentemente dramático estivesse por vir. E realmente algo se revela, mas o drama/suspense do roteiro perde o ritmo e ficamos com uma sensação de um esforço em vão. Talvez, porque a personagem demonstre certa apatia e isenção perante as informações que lhe chegam. Seus questionamentos parecem não conseguir alcançar seus objetivos, se é que ela assim os possui. 

 

A referência ao nome do filme está em um quadro que Marina ganha do marido. Uma pintura do artista de influência barroca, Guillermo Lorca, cuja temática constante em suas obras sempre são crianças e cachorros. “Laura y Los Perros” é o quadro que foi escolhido para ser o cartaz do filme e é o mesmo que a protagonista ganha. Uma criança com um olhar angelical, de pé e no topo de uma enorme colcha vermelha, usando uma camisola e cercada por cachorros. É impossível não associar o simbolismo do quadro com o filme. A menina de camisola com um olhar ao mesmo tempo inocente e sedutor, que está cercada de homens violentos, representados pelos cachorros. O que traduz bem a personalidade da personagem que usa da sua sexualidade para se relacionar com os homens, e ao mesmo tempo se vitimiza na própria ingenuidade (ou condescendência) para não enxergar aquilo que está diante de seus olhos. A cena final do filme demonstra que mesmo que ela continue vivendo nesse ambiente vazio, ignóbil e misógino da elite chilena, a violência sempre estará presente em sua vida e isso nunca poderá ser ignorado.

 

Publicado pelo Autora nos sites Blah Cultural e Cine em Foco

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