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O Processo (2018), de Maria Augusta Ramos

20/05/2018

Clássico universal sobre um homem forçado a se submeter a longa e incompreensível ação judicial por crime não especificado, "O Processo", de Franz Kafka, serviu durante muito tempo como uma alegoria para o indivíduo comum esmagado pelo aparato burocrático do Estado. Há, na história brasileira recente, uma figura emblemática do inferno surreal vivido pelo protagonista de Kafka: Rafael Braga, única pessoa presa nas manifestações de 2013, condenado por portar duas garrafas de produtos de limpeza.

 

"O Processo" de Maria Augusta Ramos é centrado no impeachment de Dilma Rousseff, presidente do Brasil à época dos protestos de 2013. Ao contrário do Joseph K. da obra de Kafka e de Rafael Braga, catador de lixo negro e pobre, Dilma era figura poderosa, alçada ao posto mais alto do país e derrubada no segundo mandato durante recessão histórica e após quebrar promessas de campanha.

 

Há pouco dessas circunstâncias no documentário, que adota um estilo fly-on-the-wall com foco nos procedimentos e bastidores que levaram à condenação da presidente no Senado. Nas primeiras cenas a câmera sobrevoa o exterior da Câmara dos Deputados durante a votação da abertura do processo, onde duas manifestações são separadas em cada lado da tela, a montagem contrastando os discursos de políticos pró ("pela família", "pelo Brasil", "contra o comunismo"...) e contra o impeachment ("pela população LGBT", "pelo povo negro", "pelos trabalhadores"...). Na realidade, não havia uma divisão tão simétrica na simpatia e no perfil da população: em abril de 2016, 70% dos brasileiros apoiavam o impeachment, momento em que ocorreu a maior manifestação de rua da história do país - a favor da saída de Dilma.

 

Na falta de contexto sobre os fatos, atores principais e sobre a natureza de julgamento político do processo, sobra ao filme construir sua narrativa via discursos públicos dos envolvidos e de momentos capturados nos bastidores. Qualquer conclusão do espectador leigo (especialmente o estrangeiro) fica limitada às suas impressões sobre figuras bizarras como Janaína Paschoal, autora do pedido de impeachment, ou sobre a retórica eloquente de José Eduardo Cardozo, advogado de Dilma. A gravidade das manobras fiscais é mencionada apenas brevemente por Cássio Cunha Lima, líder do PSDB no Senado.

 

A defesa categórica que a ruralista Kátia Abreu faz da atuação de Dilma é uma amostra do conservadorismo de seu mandato como presidente, mas surge solta, descontextualizada - Maria Augusta Ramos opta por não identificar com legendas os indivíduos retratados. Repetindo a etiqueta da militância petista nas redes sociais, quando o áudio de Romero Jucá e Sérgio Machado é tocado, o trecho sobre incluir Lula no acordo nacional é ignorado. Também acaba omitida a informação de que Dilma teve os direitos políticos excepcionalmente mantidos após a condenação. Ao fim, ganha espaço a manifestação de maio de 2017 pedindo pela saída de Temer após denúncia do Ministério Público - mas não o fato de que Lula chamou a investigação de tentativa de "golpe" e elogiou a decisão do presidente de não renunciar, muito menos a campanha coletiva do PT contra a Lava-Jato tão logo Lula e seus correligionários passaram a ser investigados.

 

A ausência de narração e entrevistas dá aparência de procedural a "O Processo", mas é nesses recortes que o filme constrói seu discurso. A bem da verdade, talvez qualquer síntese do impeachment de Dilma restrita a um apanhado imagético do processo no Congresso ofereceria um retrato simbólico inevitavelmente simpático à presidente, com políticos da velha guarda usando sua derrubada como um recurso apaziguador dos ânimos públicos. Mas com um escopo tão limitado, era de se esperar que "O Processo" ao menos alcançasse alguma revelação micro ou verdade emocional nos momentos privados capturados em câmera. Com algumas exceções, as cenas exclusivas de reuniões e conversas ao celular são banais, os momentos mais marcantes restritos às sessões públicas já assistidas por quem acompanhou os procedimentos. Dilma aparece pouco, sua reação ao próprio ocaso uma incógnita.

 

"O Processo" é, de várias formas, um espelho do debate político atual: dados e contextualização são preteridos em favor de uma polarização demarcada mais por identificação estética e simbólica do que por discordâncias substanciais sobre políticas públicas. Plateias interessadas em entender esse acontecimento histórico e seus efeitos na crise institucional permanecerão no escuro: o filme dialoga apenas com a militância carente de retificação, se não no jogo político, ao menos na catarse coletiva de uma sala de cinema.

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