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Uma Dobra no Tempo (2018), de Ava DuVernay

 

Se pensarmos na equação Disney, filme de fantasia e uma direção boa é impossível achar que um filme possa não sair bom. Infelizmente, "Uma Dobra no Tempo" (A Wrinkle in Time, 2018) contraria aquilo que não parecia ser contrariado. O filme é centrado na figura de sua protagonista, Meg, que sofre com a ausência do pai que sumiu misteriosamente. Ele fora um famoso astrofísico da NASA que queria provar que era possível viajar entre planetas por meio do pensamento. Meg junto com seu irmão Charles Wallace e seu colega, Calvin, decidem ir atrás do pai em uma constante viagem astral.

 

O problema desse filme começa com um roteiro mau estruturado com pouco tempo para desenvolvimento de personagens. O primeiro arco do filme é constantemente apressado, não há uma aproximação da protagonista com o público. Todos os diálogos são expositivos e explicativos, subestimando a inteligência do espectador. A argumentação que surge é que o filme seja infantil, mas há, inclusive dentro da própria Disney, centenas de filmes para esse público-alvo no qual o diálogo é melhor trabalhado, portanto essa justificativa faz-se furada. Ainda dentro dos personagens, o personagem do Calvin é totalmente dispensável à narrativa.

Não é possível criar um vínculo com ele ou com sua história, teria sido imensamente mais produtivo se ele não existisse ou, se junto a viagem da protagonista e seu irmão, fosse sua vizinha e inimiga de colégio, Verônica. A direção de arte e figurino estão bons, mas nada muito memorável. A montagem do filme comente erros gritantes e há constante erros de continuidade e de furos no roteiro. Coisas não são explicadas e simplesmente acontecem. A trilha sonora também não é marcante. Talvez o maior destaque dos filmes sejam as atuações de seus protagonistas.

 

Storm Reid dá vida a Meg, protagonista do filme. Ela trabalha com o que pode, já que o material fonte (o roteiro) é bem limitado. Meg transmite o todas as dúvidas e anseios de uma pré-adolescente e é bastante convincente nas relações com seu irmão e sua mãe. Certamente ela e Deric McCabe, que vive seu irmão Charles Wallace, carregam o filme nas costas. As outras atuações no filme (principalmente Reese Witherspoon, Oprah Winfrey, Zach Galifianakis e Chris Pine) estão ridículas e beiram ao caricaturismo, todas bem exageradas.

 

Contudo, esperava-se mais de Ava DuVernay, diretora do filme. Muito por conta de já conhecermos seu talento e capacidade. Ela dirigiu o ótimo "Selma" (2014) desenvolvendo temas pertinentes a sociedade nos dias de hoje. Em "Uma Dobra no Tempo", fico com a sensação de que sua direção foi atrapalhada pela produção do filme. Uma pena, pois acredito que com total controle criativo nas mãos ela teria aprofundado e trabelhado melhor os elementos que estão presentes no cerne do filme, como questões sobre bullying, representatividade e autoaceitação.

 

"Uma Dobra no Tempo" tem uma premissa boa que poderia ter sido melhor escrita e trabalhada, sem um estúdio que atrapalhasse a capacidade diretiva de sua realizadora. Ele falha como um filme de fantasia com temática infanto-juvenil, ficando bem abaixo de outros filmes trabalha melhor a temática, por exemplo A História Sem Fim (The NeverEnding Story, 1984). Portanto é deixado de lado tanto a possibilidade de se aprofundar em questões que têm sua importância, principalmente nos dias de hoje quanto na potência de seu gênero.

 

Publicado pelo Autor no Crítica In Sena

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