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Três Anúncios Para um Crime (2017), de Martin McDonagh

03/03/2018

O mito é uma das bases fundamentais para a conceituação da atividade cinematográfica. O conceito apresentado e defendido pelo mestre André Bazin ainda na década de 1950, nos leva paradoxalmente ao encontro da ideia de indissociabilidade do registro realista pelo exercício fílmico. Mais de meio século depois, é revigorante percebermos o quanto a contradição dos ideais cinematográficos da primeira metade do século XX são fundantes e reelaborados pela cinematografia contemporânea. 

 

E é por isso que trabalhos como o excelente "Três Anúncios para um Crime" (2018) nos apontam uma infinidade de percepções a partir das questões por ele esmiuçadas. Escrito e dirigido por Martin McDonagh, o longa acompanha a história de Mildred (Frances McDormand), uma mãe que desafia as autoridades locais da cidade de Ebbing no Estado de Missouri, a resolver um caso envolvendo o assassinato de sua filha. 

 

A falta de uma resolução com a captura dos culpados, a inércia e descaso da polícia local e os demônios internos via problemas pessoais envolvendo a mãe e as pessoas ao seu entorno desenham o escopo desse que é, sem dúvidas, um dos melhores filmes de 2018. Afora as sete indicações ao Oscar e demais prêmios que o longa recebeu nessa temporada, esse é daqueles trabalhos que conquistam espaços na memória do cinema por sua equânime natureza em forma e sentido. 

 

Aqui, estamos diante de um cinema “pensado”. Onde a elaboração de todos os seus pontos estão, evidentemente, no total controle do realizador a sua frente. Sozinho, obviamente, ele sabe que não conseguirá alcançar os resultados que espera na estória que anseia contar. Por isso, ele se vale de um elenco muito sólido em função de tudo o que cada personagem desenvolvido pode dar em termos de representação. Eles são complexos, multidimensionados, no fundo, e residem como um resultado orgânico de uma trama que tem na contradição seu maior trunfo. 

 

Ora, não estamos diante de um filme de heroína. De início, Macodonagh até nos dá uma falsa pista disso. Mas não nos enganemos. Essa impressão só se estende até o primeiro ponto de virada do roteiro ou até seus primeiros 20 minutos. Quando notarmos o quanto Mildred, mesmo sendo a protagonista, não é idealizada ou se coloca numa condição de vitimização diante do problema a ser encarado. Ela é forte, quase indestrutível, sim. Mas também possui contornos de uma pessoa muito intransigente, ignorante, até. 

 

Mas também pode ser uma personagem muito afável, em momentos muito particulares. Mas não apenas ela. E por isso que não estamos diante de um filme de protagonista isolado. Seu protagonismo se dilui entre os demais tipos ali descritos. Particularmente falando-se do Chefe de Polícia Willoughby (Woody Harrelson) e seu encarregado, o inconsequente Dixon (Sam Rockwell). Juntos, os três formam uma tríade mais fundamental nos rumos que a estória toma. Suas decisões e atos agem diretamente para a condução do curso da narrativa. 

 

Ou seja, cada tipo ali tem a sua relevância, e mais importante, seu contorno. Já que "Três Anúncios" é, acima de tudo, uma obra que preza a construção das suas personas. E como esses sujeitos são complexos, para não dizer esquisitos. São locatários de anúncios com dúbias intenções, homens da lei imersos num contexto de miopia social, enfim, são fascinantes. E esse estranhamento é, em termos de sentido, o que dota a atmosfera do longa de um irresistível tom farsesco. 


O hibridismo entre o drama que vai assumindo variações tonais de comédia e nessa chave opera entre suas idas e vindas, é outra aba onde a obra se sustenta. Esse ir e vir temático faz total sentido se voltamos para a questão dos multitraços contidos em cada um dos personagens anteriormente citados. Não estamos diante de um file apológico. Temos a mãe sedenta por justiça, sim. E seu discurso levemente feminista é pincelado em momentos bem pontuais. Mas o discurso está lá. Ele é sussurrado, e não gritado. E essa é a sofisticação do filme. 

 

De uma obra que não subestima nosso olhar enquanto espectadores. Ele nos pede essa atenção. De sentir os detalhes. Olhar nas entrelinhas para ver como os discursos se encaixam (ou não). Como eles se mutam, transformando-se em outra coisa. Diferentemente da “linguagem do conto de fadas”, "Três Anúncios" encontra na sua “inconsistência” sua maior potência como trabalho cinematográfico iminentemente contemporâneo. Toda sua força emerge disso. 

 

Do modo como sua forma e sentidos se juntam na construção de seu todo fílmico e artístico. Se  percebemos algumas cenas com tons mais claros em sua fotografia, é porque isso nos diz algo. São situações amenas em que os personagens se inserem. Se o tom muda, e o preto, suas sombras e o vermelho operam, é porque algo incita perigo, tensão. Essa é a mágica. 

Portanto, é esse equilíbrio exato entre forma e sentido que tornam "Três Anúncios para um Crime" um filme tão marcante. Ele não quer te convencer de nada. Tanto que subverte sua própria trama apostando em um exercício de desconstrução narratológica e dramática. É preciso coragem e domínio da linguagem cinematográfica para fazê-lo. Assumindo riscos e as inconsistências que fazem o cinema contemporâneo ter toda a força que o revela. Não em uma “venda” de contos de fadas pré-fabricados em uma temporada de premiações, mas por meio de uma obra honesta em suas intenções.

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