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Os Pobres Diabos (2013), de Rosemberg Cariry

01/11/2017

A início, e posteriormente se confirma, o retorno de Rosemberg Cariry após mais de 20 anos desde seu último sucesso, apresenta-se como uma história de observação. Não com o requinte ousado que Gabriel Mascaro encontra em ‘Boi Neon’, principalmente porque a visão geral deste sobre o artista circense na peleja da sobrevivência não é das mais novas. Mas diante alguns exageros dessa imersão, seus personagens conferem criatividade a essa ingênua metáfora sobre as pendências que sofre a arte em sua raiz.

Não demora muito para que Rosemberg aponte diretamente a origem de sua história; baseado no texto do piauiense Gomes Campos, que originou a peça “O Auto do Lampião do Além”, a abordagem precisa ser sempre aumentada por um realismo teatral. Não que isso venha diretamente da obra original, mas as constantes falas posadas e até mesmo os cenários modulares refletem a um filme-teatro. Mas diferente do que fez Denzel Washington com sua peça deselegante "Fences", aqui a movimentação é de um olhar que conhece mais espaços. Interessante, por exemplo, que a própria geografia da obra ajude a inferir isto: um circo montado no meio do nada, rodeado pela cidade, como um palco sem plateia. Sua teatralidade fica claro logo ao início quando a Santa Ceia é resgatada em uma metáfora que é puramente artística – premeditando a esperança, reverência a importância de cada refeição como as conquistas duradouras da “pobre” classe popular.

Nessa observação, porém, sobra vontade. A obra tem certa dificuldade em traduzir algum sentimento para além daquela realidade – por entender que ela é comum demais para ser atraente sozinha, a história se esforça para validar pequenos conflitos que nunca cativam ou convencem apesar dos personagens. As principais pontas (o caso do palhaço, a antipatia da personagem religiosa, o resgate dos gatos, o assaltante misterioso) parecem uma representação insossa dos problemas daquelas pessoas como conflitos “humanos” – isso estaria, em tese, além da evidente sustentabilidade financeira e emocional que tanto os preocupam como grupo. Embora desinteressante, quando há finalmente um bom conflito em sua conclusão e nenhuma dessas histórias importa, há um respiro comovente quanto a necessidade de união. Afrontar junto o destino é a única situação que realmente move suas vidas.

Embora liderado por Chico Diaz e Silvia Buarque, o elenco confere traços carismáticos em sua maioria. As curtas preocupações que o roteiro induz aos personagens vividos por Gero Camilo, Everaldo Pontes e Zezita Matos dialogam diretamente com algumas dúvidas - são ícones distintos desse sofrimento inerte às suas sobrevivências. Seja fome, amor ou ódio, são sentimentos que encaixam com as incertezas que, de certa forma, tentam guiar essa trama simplista. E é perceptível que essas sensações sejam também evocadas pelo improviso, como destaca trabalhar o cineasta. Não só de seus atores, mas também da natureza que os observa, como quando uma gaivota cruza um plano aberto em um momento de liberdade ou quando um cachorro dualiza com a figura de outro animal em cena.

Mas essa percepção também possui sua parte super calculada; a fotografia assinada por Petrus Cariry é matemática e mais autoral impossível. Não tive certeza até o surgimento dos créditos que Petrus era o responsável pelas composições, mas é impossível não tê-lo imediatamente em mente quando surgem os últimos planos. O contraste entre a escuridão e as faíscas (fazendo alusão direta ao medo e a frustração) parecem ter saído diretamente do enigma sombrio de 'Mãe e Filha' e até mesmo da cena dos vagalumes de "Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois". Mas isso não significa que toda essa inspiração sempre se contenha ao filme; há planos que evocam metáforas que só valem pela estética narrativa, como a dos filhotes que "renascem" sob o fundo da sagrada família.

De toda sua essência, resta a poesia da ilusão; como a força imêmore da arte expressa na intimidação de um leão que morreu de fome. O Gran Circo Tetro Americano é essa resistência que precisa produzir e vender a própria arte sem qualquer garantia. O diálogo final, mesmo que pontuado de forma inorgânica e com a teatralidade elevada ao extremo, permite acender essa esperança. Rosemberg Cariry, um dos equilibristas da arte cearense, ao menos sabe que o show de todo artista tem que continuar.

 

Publicado pelo Autor no Quarto Ato

 

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