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O Clube dos Canibais (2018), de Guto Parente

01/11/2017

 

Estamos passando por um momento muito especial do cinema brasileiro, em que uma pluralidade cada vez maior de estilos, gêneros, maneiras de se fazer filmes está surgindo. O "O Clube dos Canibais" (2018) representa tanto este momento especial do cinema de gênero no Brasil, quanto também uma espécie de consolidação de uma chamada "primavera do cinema cearense", como alguns já vêm denominando este momento próspero e rico.

"O Clube dos Canibais" é também a afirmação de um cinema voltado para o horror e com um cuidado muito especial com a forma. Seu diretor, Guto Parente, já havia mostrado isso no ótimo "A Misteriosa Morte de Pérola" (2014), feito sem recurso algum do Estado, com um valor de produção próximo do zero. Parente escreveu o roteiro de "O Clube dos Canibais" em 2013, aplicou o projeto em edital em 2014 e finalizou as filmagens em 2016, tendo suas primeiras exibições em festivais ligados ao gênero fantástico em 2018.

Ou seja, o filme atravessou todo esse turbilhão de situações de pesadelo pelo que tem passado o Brasil ao longo desta década. A crítica à elite, que come os mais pobres - e pardos e pretos - e que elogia o "primeiro mundo" continua atual. Na verdade, ela nunca deixou de ser uma realidade do nosso país. Apenas as máscaras caíram.

"O Clube dos Canibais" conta a história de Otávio (Tavinho Teixeira), dono de uma empresa de segurança privada, e Gilda (Ana Luiza Rios), sua esposa, que adora ficar na piscina tomando uns drinques enquanto sensualiza para o caseiro. Os caseiros, logo veremos, passam por uma rotatividade intensa na casa, já que são sugados para a cilada de seus patrões. Gilda os atrai para o sexo enquanto o patrão está supostamente indo para Fortaleza.

A cena que mostra o sexo de Gilda com o caseiro, a masturbação de Otávio, o machado na cabeça da vítima, o êxtase, tudo isso é tudo muito cheio de sensualidade, assim como a visão de Gilda, descendo as escadas, com o corpo nu banhado de sangue, como uma espécie de versão maligna e poderosa da inocente Carrie (difícil não lembrar do filme do De Palma).

O interessante é que o gore, a violência gráfica, não parecem tão perturbadores neste filme que conta com um senso de humor satírico muito agradável. Sem falar que Guto Parente, sendo um esteta, preza pela beleza das imagens. Assim, o vermelho do sangue e tudo o mais que compõem essas cenas fazem parte de uma intenção de fazer cinema mais ligado ao prazer visual, à valorização da fotografia e do desenho de produção, do que ao choque pelo choque, muito comum em alguns filmes do subgênero torture porn, em moda na década passada.

Além do mais, percebemos que o filme não se atém simplesmente a uma repetição desses eventos na casa de Otávio e Gilda. Na verdade, há uma cena em especial que mudará o destino dos personagens. Isso acontece quando, em uma festa do tal clube, Gilda flagra o grande líder, Borges (Pedro Domingues), um deputado influente, em um ato secreto. Impagável a cena de Gilda indo conversar com Borges no dia seguinte. Um convite à gargalhada e um sinal de que Guto Parente e seu filme já haviam ganhado o espectador.

"O Clube dos Canibais" conta com uma equipe de dar gosto. Fernando Catatau, guitarrista célebre de Fortaleza, faz a trilha sonora, que valoriza tanto os sintetizadores quanto a bateria, amplificando o prazer fílmico. A supervisão de efeitos especiais é de Rodrigo Aragão, famoso por sua filmografia voltada ao horror gore. E há toda uma turma que vem crescendo cada vez mais no cinema cearense, como Ticiana Augusto Lima, Breno Baptista, Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Samuel Brasileiro, Lia Damasceno, Luciana Vieira, entre outros, que fazem parte do filme em variadas funções.

Por isso, não seria um exagero colocar "O Clube dos Canibais" na mesma lista de obras como "As Boas Maneiras", de Juliana Rojas e Marco Dutra; "O Animal Cordial", de Gabriela Amaral Almeida; e, por que não?, "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles, filme que, segundo Parente, é um divisor de águas deste momento. Sem falar que há toda uma questão muito ligada ao ataque por parte da elite às classes menos favorecidas, que permeia todas essas obras.

No mais, difícil terminar este texto sem elogiar a elegante performance de Ana Luiza Rios, como Gilda, e também de Tavinho Teixeira, claro. Nosso cinema está cada vez mais pulsante, nadando contra a maré de ataques do governo federal. Haveremos de sobreviver gloriosamente.

 

Publicado pelo Autor no Diário de um Cinéfilo

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