Malasartes e o Duelo com a Morte (2017), de Paulo Morelli

24/08/2017

Durante a primeira década dos anos 2000, as comédias brasileiras de mais destaque tinham em comum a ambientação nordestina com temáticas dos tradicionais cordéis. Obras como "O Auto da Compadecida" (embora este seja uma mini-série reeditada como filme), "Lisbela e o Prisioneiro" e "O Homem que Desafiou o Diabo" apresentavam personagens estereotipados e humor caricatural, mas que funcionava muito bem para a proposta a que se cabiam.


Não demorou para que a produtora Globo Filmes percebesse aí uma oportunidade de lucro ainda maior, caso se desprendesse de uma região específica e retratasse a realidade urbana de fácil identificação do grande público. Embora o sucesso destes títulos seja ainda maior, esta produção em massa se deu em detrimento de sua qualidade.


Eis que, na contramão do que atualmente movimenta o mercado de comédias nacionais, "Malasartes e o Duelo com a Morte" surge como resgate da estética cordelista que havia sido esquecida nos últimos anos. Lançando mão de efeitos visuais raramente utilizados nas comédias desta linha, a tradição se encontra com a modernidade e levanta o ânimo daqueles que se remoíam a cada nova produção recente da Globo Filmes.


O protagonista, Pedro Malasartes, cuja origem ibérica data do século XIII, é um personagem recorrente na cultura popular. Suas características de inteligência, astúcia e humildade inspiraram outros grandes personagens como João Grilo, de Ariano Suassuna, em sua obra "O Auto da Compadecida".


A trama parte do tédio que a Morte (Júlio Andrade) sente de seu trabalho. Visando alguém que a substitua, torna-se padrinho de Malasartes (Jesuíta Barbosa), um caipira desajeitado que aparenta ser uma presa fácil para seu plano. A Morte o acompanha à distância até que complete a maioridade para persuadi-lo a tomar seu lugar no trabalho eterno de tirar vidas. “O mais esperto dos homens vai enganar a Morte ou será a Morte que vai enganar o mais esperto dos homens?”.


O enredo, criado pelo diretor do longa Paulo Morelli, data dos anos 80 como proposta para uma série de televisão com temática folclórica. Não é a toa que o roteiro final seja bem escrito, levando em conta as esperadas bizarrices de sua atmosfera caricatural e fantástica. Embora o enredo fique a beira de um colapso que resultaria em um desastre narrativo, Morelli consegue se focar na história que deseja contar e onde ela precisa chegar, apesar dos desvios intencionais e momentâneos.


Os personagens são carismáticos, com destaque para o protagonista e o antagonista – Jesuíta Barbosa e Júlio Andrade, respectivamente. Isis Valverde só funciona graças à boa direção de atores de Morelli, pois Augusto Madeira, que interpreta um personagem bem menos importante, ainda tem um carisma maior do que a atriz. O único realmente deslocado é Leandro Hassum no papel de Esculápio, ajudante da Morte. Seu personagem é um mero alívio cômico que se esforça para ter alguma importância na trama, mas nem suas piadas funcionam.


Os efeitos visuais merecem destaque. Filmes como "Dois Coelhos", de Afonso Poyart, e "Nosso Lar", de Wagner de Assis, são igualmente ou até mais memoráveis neste sentido. Mas é difícil citar outra comédia nacional capaz de apresentar um acabamento técnico deste nível. Isto vale também para a direção de arte de Chico Zullo, que não se acanha em produzir cenários e tipos caricaturais em vez de um realismo desnecessário.


O principal ponto fraco do filme é a direção de Paulo Morelli. Apesar de trabalhar atores de forma a salvar o longa em certos momentos, o cineasta falha em termos de linguagem. A escolha de posicionamentos de câmera e planos próximos à ação remetem a uma estética novelesca que limita o potencial estético do filme. Isso acaba não valorizando o trabalho de Zullo tanto quanto poderia, ao mesmo tempo em que deixa a fotografia de Adrian Teijido refém da mise-en-scène, que muitas vezes parece improvisada, resultando em vários desfoques e desenquadramentos. Morelli parece se orgulhar do mundo fantástico que criou, mas não apresenta o mesmo empenho nas cenas do mundo real.


O resultado é um filme que diverte por ser pouco comum atualmente. Está longe de ter o mesma qualidade de humor, coesão narrativa e importância dos anteriores que fazem parte deste subgênero da comédia brasileira. Porém, é uma obra que reconhece de onde veio e pode servir como novo ponto de partida para outras produções que resgatem o velho espírito cordelista-folclórico típico de nosso povo e que traz diversas possibilidades no cinema.

 

Texto publicado pelo autor no site Cinemaginando.

 

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