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Xale (2016), de Douglas Soares

10/05/2017

A delicadeza de "Xale", primeiro longa-metragem do carioca Douglas Soares, é mais íntima do que um beijo de amor. A obra se utiliza de elementos da linguagem ficcional e documental para explorar a busca do cineasta pelo passado da própria avó, Araci Vanassian, descendente do genocídio armênio. Anos atrás, ela recebeu uma carta escrita em antigo armênio por um familiar, que nunca foi traduzida. Como resposta ao texto, Dona Araci enviou um xale que nunca chegou ao destinatário.

 

Para investigar o passado da família, o diretor vai para a Armênia com o xale em mãos. A relação entre os dois personagens se estabelece de um lado pela viagem de Douglas e do outro pela velhice de Dona Araci, que revelam a base dramática da relação entre neto e avó.

 

Na primeira metade da história, Douglas realiza um filme de um homem só. Em um país desconhecido e com a limitação do idioma, ele procura endereços que já não são os mesmos enquanto filma e fotografa cenários que fizeram parte do passado da avó.

 

Não demora muito até ele encontrar alguém para traduzir a carta que, talvez, só importe mesmo para Dona Araci. A partir disso, parece que o cineasta também está fazendo uma viagem de descoberta de si mesmo. Sozinho, muitas vezes em silêncio, Douglas caminha com uma motivação em mãos e várias no coração. É de lá que ele recebe a notícia do Alzheimer da avó, que tem dificuldade de lembrar informações recentes, mas nunca esquece do passado.

 

O roteiro de "Xale" fala sobre as memórias que construímos no decorrer da vida, bem como sobre nossa projeção de um futuro incerto. Ao voltar para o Brasil, o diretor direciona a relação com a avó dentro de casa, dependente de atenção. Eles passam os dias entre conversas e cuidados que se potencializam pela naturalidade com que são registrados pela câmera.

 

Se em um primeiro momento o filme impressiona pela destreza do diretor em fazer um diário, ao voltar para o Rio de Janeiro, Douglas mostra sensibilidade e inteligência ao criar e condicionar os diálogos com Dona Araci. A dificuldade de comunicação do idioma do primeiro ato transforma-se no conflito do diálogo entre duas gerações que não funcionam da mesma forma.

 

Em comum, os dois entendem que o tempo passa e a vida precisa ir para frente. O passado serve de referência para a projeção de um futuro incerto. Resta a vivência do presente, com as dificuldades que moldam nossa existência.

 

"Xale" traz essa essência fresca do cinema brasileiro de refletir sobre um macro a partir de um recorte mais íntimo, onde realizador também é personagem, sendo possível até quebrar conceitos de linguagem para trazer novas propostas ao enredo.

 

O longa cresce pela sabedoria do diretor de não forçar a emoção dessas relações históricas, seja a carta melancólica ou o envelhecimento de Dona Araci. 

 

"Xale" não nos prende em um único cenário de emoções e interpretações, preferindo dar liberdade para se envolver e pensar as representações familiares, sociais e políticas feitas em tela. 

 

A partir disso, é impossível não encontrar em Dona Araci uma personagem carismática, que esconde um passado incompleto e hoje vive certa lucidez em meio ao Alzheimer. Em Douglas, vemos um jovem que busca sua própria libertação, como homem e como artista. É possível se emocionar, principalmente na conversa final, quando os dois falam sobre a vida, deitados na cama.

 

"Xale" é, acima de tudo, um presente de Douglas para Dona Araci. Sem cair no fatalismo da velhice ou na juventude transviada, é um filme que encanta pela delicadeza e pelo respeito com que foi concebido. Ele reflete sobre as marcas que definem a nossa existência e fala sobre a vida que segue, onde somos mutáveis e mortais.

 

É mais um filme de amor, fruto de uma forma especial de olhar para dentro dos personagens e de explorar as possibilidades da narrativa cinematográfica, como Douglas já fez nos curtas "A Dama do Peixoto" (2011) e "Contos da Maré" (2013), além das várias colaborações com Allan Ribeiro, como nos excelentes "Esse Amor que nos Consome" (2012) e "Mais do que Eu Possa me Reconhecer" (2014).

 

Publicado originalmente pelo autor no Jornal Diário do Nordeste.

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