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Um Limite Entre Nós (2016), de Denzel Washington

25/02/2017

“Eu já nasci com dois strikes”, diz Troy Maxson (Denzel Washington) ao filho Cory (Jovan Adepo), referenciando o baseball, no qual três strikes significam a eliminação do jogador. Ele, um ex-jogador do esporte. Cory, um aspirante a jogador universitário de futebol americano. Entre os dois, como uma cerca, uma sociedade cujas decisões são feitas por e para os brancos. Em seu terceiro longa-metragem como diretor, “Um Limite Entre Nós”, Denzel Washington mostra a forma como o racismo define um destino e a amargura pode corroer um bom coração.

 

Estados Unidos, década de 1950. Um catador de lixo, patriarca de uma família negra de classe operária tem uma rotina simples de trabalho e obrigação. Receber salário e entregá-lo para a esposa, beber um gim no final de semana e prover para os filhos. Tudo começa leve, tranquilo. Com um roteiro adaptado do teatro, da peça “Fences”, de August Wilson, a trama se foca em longos diálogos e na contação de histórias do carismático Maxson. Ele tem um filho de primeiro casamento que tenta viver músico, Lyons (Russell Hornsby). Do segundo casamento, com a forte e dedicada, Rose (Viola Davis), nasceu Cory, que tenta ser tudo que o pai foi impedido de ser. Há ainda Gabriel (Mykelti Williamson), irmão de Troy e que sofre sequelas neurológicas após uma explosão num front da Segunda Guerra Mundial.


O começo é leve, quase tranquilo. É fácil gostar de Troy e difícil saber se o que ele conta, brincando, é verdade. Ele seria um dos maiores jogadores de baseball da história, não fosse a cor da pele. Mas é amável, ainda que duro. Só que um dia, Cory tem uma oportunidade de seguir os passos que o pai nunca teve. E a amargura engole o patriarca aos poucos. Pouco após ser intimado a assinar uma autorização para Cory jogar por uma universidade, ele conta, pela primeira vez, a história de sofrimento e injustiça em que cresceu para Lyons, que já tem 34 anos. De um lar abusivo, ele fugiu para uma vida de crime. De criminoso a presidiário foi um pulo. Lá, descobriu o baseball, mas a chance nunca veio. Só que os Estados Unidos vieram e a vida de Cory é mais fácil.

 

O poder destrutivo do racismo institucional é intuído de forma sensível no filme. A amargura crescente de Troy é dolorosa e se revela no descaso a Rose e Cory. O que num primeiro momento era cumplicidade de casal, vira enfrentamento. Tudo isso cresce ainda mais a partir das atuações seguras e vibrantes de Denzel Washington e Viola Davis, que nunca se diminuem frente ao outro.


O catalisador da história, no entanto, é Cory, e o rapaz some da maioria das melhores partes do filme. Falta foco na trama, que podia mostrar uma nova geração de homens negros galgando algo que era negado aos seus pais. Mas há ali muitos personagens bons, e um excesso de diálogos. Troy, por exemplo, não parece calar a boca um segundo, o que faz com que frases fortes como a do início do texto passem batido. Acaba que o falatório excessivo quase nunca se transforma em ação ação de fato. Parece teatro demais — o que podia ser elogio, mas é crítica.

 

Outro fator ressaltado na falta de foco do roteiro é o discurso religioso. Troy brinca que já duelou com a morte e venceu, mas essa parte funciona na ludicidade do primeiro ato do longa. A ladainha de Gabriel também tem seus momentos, por ampliar o sofrimento de Troy — um personagem focado na própria responsabilidade, mas que careceu da tragédia do irmão para prover para sua família. Só que é repetitivo, não avança. A cena final é representativa disso, já que tenta dar sentido a todas as pontas soltas da trama, mas só consegue ser um clichê espiritualizado. Mais que a necessidade de um céu e de um inferno, a capacidade de a amargura afogar os bons sentimentos de alguém forte e justo poderia (e deveria) ser a lição ressaltada em “Um Limite Entre Nós”.

 

Publicado pelo autor no blog Cinema às 8 / O POVO Online.

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