Kubo e as Cordas Mágicas (2016), de Travis Knight


Existe uma longa corrente de autores, em diferentes artes, que escreve sobre escrever. Conta histórias sobre contar histórias, filma longas sobre cinema, se debruça sobre a arte de transcrever sentimentos para os outros. O escritor inglês Neil Gaiman, por exemplo, é um mestre em tecer teias narrativas juntando pedaços de mitologia, sonho e medo.

Não é coincidência, então, que o estúdio de animação Laika seja o responsável por “Kubo e as Cordas Mágicas”, seu quarto longa. A companhia, especializada em animação em stop-motion, foi apresentada pela bela adaptação de “Coraline e o Mundo Secreto” (2009), escrita pelo próprio Gaiman. Depois dos ótimos “ParaNorman” (2012) e “Os Boxtrolls” (2014), “Kubo” mantém a tradição de histórias moldadas para quem gosta de ouvir e contar. Com esse breve rol de belos filmes, a Laika já é páreo da Pixar na certeza da qualidade, estando bem a frente de estúdios mais produtivos como a irregular Dreaworks e a questionável Illumination Entertainment.

Dirigido por Travis Knight, “Kubo e as Cordas Mágicas” conta a história de uma família despedaçada. Uma mãe com poderes especiais, foge do próprio pai e das irmãs para proteger seu filho. Com sua magia enfraquecida, a matriarca vive reclusa, enquanto o filho usa sua música para dar vida a origamis (dobraduras de papel) e contar a trajetória do incrível samurai Hanzo. Tudo muda quando Kubo fica fora da caverna durante a noite, na tentativa de contatar seu pai morto, e é encontrado pelo avô, o rei Lua, e tias.

A partir daí, Kubo segue em uma viagem em busca não só de si, mas de suas raízes. Ao lado da maternal Macaca e do confuso Besouro, o garoto viaja por um Japão feudal estilizado para conseguir artefatos que o protejam do avô. Paulatinamente, Kubo descobre os detalhes da jornada do pai, Hanzo, e da mãe, Sariatu, e como eles passaram a ser caçados pelo avô. Apesar da produção norte-americana, o filme mantém sempre a deferência ao conteúdo nipônico, com referências indo do xintoísmo e ao bushido, o código de honra samurai.

A maior qualidade da obra, no entanto, é claramente estética. Ao contrário de estúdios mais, digamos, robustos, que apostam no grafismo detalhado, a Laika investe em direção de arte e continuísmo. Note-se a forma como os personagens se movimentam ou como a “câmera” dá um fluxo de ação contínua. Bem decupado, o longa tem uma montagem pensada nos mínimos detalhes. Esses detalhes fazem um diferencial na forma como nos relacionamos com os protagonistas. A iconografia do besouro, onipresente, a forma como objetos cênicos como um brinquedo infantil ganham forma no desenrolar, a plasticidade estilizada de cada cenário. Tudo converge numa trama cheia de méritos.

Afinal, para que tudo funcionasse, o roteiro não podia ser feito de clichês. Com plot twists (virada da trama) bem construídos, o filme foge da previsibilidade. Com resoluções originais, o filme tem um final muito mais nipônico do que ocidentalizado. É bem único. Ao mesmo tempo, profundamente humano. A Macaca, superprotetora, arisca, e, por que não, chata, é das melhores surpresas de “Kubo e as Cordas Mágicas” justamente por inspirar emoções bem familiares.

“Kubo e as Cordas Mágicas” é artesanato. É a prova de que stop-motion é trabalho hercúleo, mas delicioso. É uma obra discreta, bela, inteligente e surpreendentemente profunda sobre como as histórias surgem, morrem e renascem — bem fiel a noção de tempo dos japoneses. Que a Laika siga por muitos tecendo roteiros sobre crianças que recontam histórias da mãe sobre as desventuras do pai. Porque, como diz o filme, uma história não acaba, ela é repassada eternamente.

Publicdo pelo autor no blog Cinema às 8 / O POVO Online.

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